Agora te entendo, Bandeira, quando falavas de tua primeira namorada. Como Quintana dissera, "eles passarão". E assim JP me fugiu, sem eu sequer dar-me conta. De tudo, o que mais me angustia é perceber que não o vi passar. Que simplesmente me dediquei ao ato mecânico de cuidar-lhe o sustento, de não deixar-lhe faltar nada, e assim repeti um ato que tanto critiquei por toda a minha vida.
Corro tanto, penso tanto, e pra quê? Quantas coisas boas deixei passar? Quantas pessoas passaram e passarão por mim sem que eu o perceba?
Estou triste, verdadeiramente triste, e meu egoísmo é tanto que minha tristeza sequer se deve à morte do amigo. Estou intensamente triste porque não fui capaz de perceber a ausência do companheiro de Zero Hora, de hiperatividade, de correria vital. E, quando ele me pediu socorro, eu estava correndo tanto, e pensando tanto em tantas coisas, que não pude ouvi-lo, nem vê-lo, e tudo o que agora tenho são esparsas notícias de seu fim.
Sabe-se lá quando eu ia perceber que JP tinha partido, tão preocupado com meus artigos, meus trabalhos, eu, eu, EU! Nunca me senti tão impotente diante da vida. Nunca me senti tão nada.
Espero ter aprendido com isso, e que a morte do Jean Pierre, meu velho e bom hamster, sirva-me como lição, como que dizendo-me: "olha mais pros lados, meu velho. Cuida das pequenas coisas, e corre menos, porque a pressa é inimiga das afeições".
Como me dói a tua falta, velhim. Mas nada se compara a essa dor de não ter te sentido ausente.