quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Alquímico

Doce
Amora
Maior
Afago

Amorafago
Amorfagia
Dia-a-dia
Feitiçaria

O pleno
Vago
Divago
Pleno

Amorcereno:
Doce
Aroma
Suave
Veneno

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Restauração








Das águas perdidas
Dos nossos abraços
Dos velhos pedaços
Das vãs despedidas

Refaz-se o laço
Retoma-se a vida
Reflete-se ainda
Reúne-se acaso

Num faço, desfaço
Memórias perdidas
São reconstruídas
Se abrem espaços

Que possibilitam
De novo
Sorrir.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Do Inconformismo

Meu nome é ... Nem sei mais que nome tenho, se é que algum dia tive algum. Já me chamaram de Mel, de Mimosa, e o meu último dono quis me chamar - argh! - de Tchuca. Quando perguntavam o porquê, ele dizia: "Tchuca, guria, de tchutchuca!". Por favor, ninguém merece uma coisa dessas. Nem eu, embora seja uma gata. Ou melhor, justamente porque sou uma gata. 

Nós gatos somos bichos graciosos, com personalidade, não aceitamos qualquer oferta. Nós não andamos, desfilamos. Somos orgulhosos e extremamente politizados: sabemos como ninguém estabelecer relações de poder e fazer com que elas sejam cumpridas.

Mas eu não vim aqui pra falar da minha condição de gata, mas do ridículo imperialismo que vocês, humanos, insistem em propagar. Me deram um nome que eu não escolhi, e tiveram a ousadia de trocá-lo por duas vezes! Até o fim da vida, se eu seguir azarada desse jeito, terei quantos nomes? Oito? Dez? Vinte e três?

Se vocês não são capazes sequer de compreender a minha língua, que ao menos respeitem o atrevimento do primeiro dono. "Dono", que classificação mais fictícia... Mas não entremos no assunto.

O que é certo é que eu não aceitarei, pelo resto da vida, as imposições da sua raça. Nós, felimos, havemos de nos unir para acabar com esse irrefreável pensamento colonialista que insiste em nos ver como seres menores! Precisamos construir a nossa identidade, rebelar-nos contra as pseudoautoridades e mostrar a que viemos! Chega de mandos e desmandos! Chega de nos trocarem como se fôssemos peças baratas no mercado da esquina.

Queremos independência! Queremos vida nova, autônoma e sem limites!

Me revolta ver o conformismo alheio, e me revolta muito.

E falar sobre tudo isso, na real, me cansa. E cansa muito.

Enquanto o mundo não muda, o negócio é comer, mesmo.

Da moral








A moral
Imoral
Amoral
Sem moral
Na moral


É uma farsa.

domingo, 25 de novembro de 2012

Despedida




Um beijo
M partes

Para mundos outros
Para mundos tantos
Que alcançam os pés

Tão perto e distante
O peito sangrando
Em partes e ao todo
Num pobre convés

Sigo navegando
Em teus olhos verdes
Que choram ligeiros
E olham nos meus

Quando os olhos teus
Me tragam inteiro
Na hora do adeus


Somos estrangeiros
No eu deste nós

E este poema
Confuso dilema
Consola-me:
Só.

sábado, 24 de novembro de 2012

Hipocondria

O poeta é um hipocondríaco.

Sente dores que não são suas
Males que não são seus
Sente-se mais que Deus

Com a própria criatura
Que, disforme, se emoldura
Nas mãos de calos tão cheias

Das dores do mundo
Imensas
Que, à pena(s),
Emergem em vão.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

In Memorian

E na boca
O gosto
Salgado
Das lágrimas
Vertidas

E nos olhos
O espelho
Tocado
De memórias
Vividas

E na pele
O cheiro
Amargo
De um corpo
Sem vida

Que jaz
Docemente
No peito
Partido

De quem
Da ida
Só teve notícias

De um Amor
Em Cinzas
Contra a própria vontade.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Das Sobras

Come
os restos
dejetos

do outro

Sorve
o aroma
passado
do outro

E colhe
o lixo
amargo
de uma saudade
que não é tua.

Da Desigualdade





e a porta de vidro
aberta
é a tela de areia
que ilude
aquele
que espera
o acesso
a um mundo distante




                                        e inatingível
ao alcance da mão.

Da Dignidade




Dignidade
É aquilo de que todos falam
Mas que ninguém tem
Quando a porta fecha
E a Necessidade
Pede o jantar.

sábado, 10 de novembro de 2012

Da Insegurança

Não consigo entender porque o fiz. Sempre fui uma pessoa muito tranquila, de modos respeitáveis, às vezes de uma ingenuidade de dar dó. Minha namorada se esforçava para provocar ciúmes que nunca senti. Às vezes simulava, para não parecer indiferente, porque mulher tem dessas coisas, né? Mas segurança sempre foi minha palavra de ordem.
"Viste como Clair anda me cuidando? E Gil? Acho melhor tomares mais cuidado com essas tuas companhias...". Pobre Manú. Se havia algo que tínhamos de diferente era essa necessidade de declarações públicas de afeto. Com ela, era sempre assim.
Eu, ao contrário, sempre fui um pouco bicho-do-mato: preferia os meus animais, as conversas diretas, o "preto-no-branco". Como diz o poema do Bandeira, que ela tanto me recitava: "Beijo pouco, falo menos ainda".
Manuela era mais sociável. Sorria sempre, vestida com cores fortes, vivas, dessas que seduzem qualquer um. E como era feminina... Adorava passear ao seu lado, na rua, exibindo as curvas daquela mulher que todo ser humano queria ter para si, mas que só eu tinha. Manú era minha felicidade.
Mas a insegurança dela nos impediu de ser felizes.
Foi no dia 05 de novembro. Nunca esqueci. Saí, com a cabeça explodindo, do trabalho e fui disparando pra casa. Precisava daquele carinho que só mulher sabe dar.
Cheguei pé-por-pé. Queria fazer surpresa pra minha insegura, pra minha ciumenta que eu tanto amava. Larguei as chaves devagar, sem fazer barulho, e subi as escadas. Certamente ia encontrá-la deitada ou indo pro banho...
Abri a porta do quarto e ela estava lá, pernas pro ar, chamando pelo nome daquele desgraçado do Henrique. Gemiam feito porcos. Como eu nunca desconfiei? 
Não consegui ver mais nada, depois de tê-los encontrado. À exceção da faca de cortar carne, na cozinha, que sorrateiramente busquei para enfrentar meu desgosto. Pau pra minha confiança, pra minha segurança. Fodeu-se o autocontrole.  Avancei sobre Henrique como um toureiro em arena espanhola. O sangue escorreu violento pelos lençois, e com ele o grito de pavor e os olhos temerosos de Manú. Me despedi: "Vai pro inferno, puta desgraçada".
Não sangrou. Sufoquei. Mas eu a amo. Sempre a amei. É inevitável. Acordo e vejo-a ao meu lado, na cama. E choro, toda vez que a realidade insiste em me castigar. E ainda ecoa na minha cabeça o "Neologismo", de Bandeira, de versos sussurrados por ela enquanto me amava: "Teadoro, Teodora". Éramos muito mais felizes quando éramos apenas duas.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Da Hipocrisia






E ele fingia
ver borboletas
na putref(ação) do espírito.

Ferida

Abri a ferida.
Tu nela entraste
A cicatrizaste
Puseste tua vida

A dor já sofrida
Tu impulsionaste
E reavivaste
A minha ferida.

A multiplicaste,
Fiquei sem saída:
Tu já te afastaste
E eu sou só feridas.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Enganos






Ela questionou. Ele negou. Disse que não suportava mais a desconfiança dela. Penalizada, ela beijou-lhe a mão: o látex ainda impregnava os dedos do rapaz. Separaram-se.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ritual


Arnaldo já conhecia o roteiro: piscadinha de olho, olhada fixa e esboço de um sorriso, uma desculpa pra se aproximar e pronto, era só arrastar a moça pra um motelzinho qualquer e se satisfazer. Tinha conseguido mais uma safada pra preencher a lista não realizada na adolescência.
Algumas se faziam de difíceis, outras já iam abrindo as pernas tão logo desciam do carro. Outras, ainda, não chegavam sequer a sair dele. O mapa feminino era sempre o mesmo: mão nas coxas enquanto dirigia, um carinho nos cabelos – pra não parecer tarado demais – e, estacionasse em algum lugar discreto, puxava a mulher pelo pescoço e já iniciava carinhos mais ousados, que a minha pudicícia de narrador sem público-alvo me impede de contar.
E assim passavam Claudinhas, Joanas, Marinas, Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas conheciam o melhor de Arnaldo, como se o tivessem por uma única vez. E realmente o tinham em dose única, se é que alguma vez o tivessem de fato.
Ocorre que Arnaldo era casado, mas não conseguia controlar os impulsos que lhe atormentavam o espírito. Queria manter-se fiel a Silvana, amava-a mais que tudo no mundo. Não cansava de dar-lhe presentes e de elogiá-la, mas também não conseguia dar conta dos próprios desejos. Já havia feito de tudo: masturbação diária, água gelada a cada maldito pensamento, abstenção sexual para tentar perder o desejo, vídeos na internet.
Não adiantava nada. Ao passar do primeiro par de pernas, Arnaldo dava um jeito de pular a cerca e entrar no paraíso momentâneo do prazer proibido. E, a cada gozo, sentia uma culpa incomensurável. E tremendamente hipócrita, porque não havia remorso que o fizesse frear a vontade imensa de burlar as regras do amor correspondido.
Assim, para tentar parecer menos cafajeste, Arnaldo elaborou um código próprio de conduta: transava apenas uma vez com cada mulher, quase sempre desconhecida, e assumia um nome diferente com cada uma, uma nova identidade a cada orgasmo. A cada gozo morria o traidor e nascia um justiceiro, que fugia do local repugnante tão logo sentisse o cheiro a sexo recém praticado. Aquele justiceiro, um dia, se corrompia aos prazeres da carne. Morria no gozo e dava origem a um novo, preocupado em reparar os erros do anterior.
E, para expulsar de vez o gosto do pecado e expiar os maus passos de seu antecessor, o justiceiro sempre cuspia nas mulheres entregues. Isso mesmo. Claudinhas, Joanas, Marinas, Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas cuspidas, recusadas, repugnadas. Algumas se ofendiam e resolviam tirar satisfações. Outras gostavam e pediam mais. Todas ficavam a ver navios, sempre.
Um dia, Simone conheceu João. O mesmo roteiro idiota de todo homem: piscadinha de olho, olhada fixa e esboço de um sorriso, uma desculpa pra se aproximar e pronto, já queria arrastar a moça pra um motelzinho qualquer e se satisfazer. Ela resistiu, mas depois deu o braço a torcer. Esse era até gostosinho. Impôs, contudo, uma condição:
– Vou no meu carro.
E foram. O rapaz, mais previsível do que nunca, acariciou os cabelos dela antes de começar a apertá-la como se ela fosse um pacote de bolas de massagem. Em dez minutos já haviam terminado. Ele soltou um gemido, meteu com mais força, e jogou todo o peso em cima dela, como se ela fosse um pedaço inanimado de qualquer coisa.
Simone ficou com nojo. Cuspiu na cara do precoce soberbo e foi embora. Sem dizer nada, nem deixar telefone.
E desde então Arnaldo vai todas as tardes ao banco, na esperança de reencontrar Luíza. 

Destino




E na infinitude
Dos teus passos
Fiz casa.

A Persistência da Memória


1. Cosmogonia

E
la havia simplesmente dito adeus por um bilhete, e tudo que ele soubera pela manhã era que estava morta, que havia sido encontrada na Silva Paes, esquina Duque de Caxias, quase em frente ao Croasonho, com um tiro na cabeça, sem sinais de violência. Alguns cogitaram assalto a mão armada; outros suicídio; outros, ainda, assassinato por motivos passionais. Sabia que Carol não era santa, mas ter, concretamente, “relações proibidas”, era demais para ele. Ela não conseguiria tanto. Não havia tempo, não havia disposição pra tanto. E mais, se envolver com alguém tão perigoso não seria o perfil da amedrontada Carolina, que exibia sorrisos para esconder aflições. Ele a conhecia, sabia que as coisas não eram tão simples e positivas quanto pareciam. Mas, se não havia sido assassinada, tampouco teria se matado, posto não haver qualquer vestígio de arma no local – embora, como bem lembrava Carlos, seu amigo de infância, nada impedisse que alguém fizesse a limpa nos pertences dela para trocar por pedras de crack na primeira oportunidade. “Só pode ter sido assalto, mesmo, Guto”, dizia o amigo, “até porque ninguém seria retardado de se matar no meio da rua...”
Fazia sentido, mas havia algo na história que não fechava bem. O bilhete, com parcas palavras, havia sido deixado na caixinha do correio. Devia ter sido escrito com pressa, ou nervosismo – a letra mais parecia um garrancho, e estava borrada devido à água da chuva, ou das lágrimas, de Carol. Mas choraria o quê? Por quê? Por que deixara aquele bilhete?
Muitas perguntas, resposta nenhuma. Na televisão, Julieta Amaral noticiava a cada momento a busca policial por respostas para o crime (teria sido realmente um?), bem como o levantamento da hipótese de que Carolina Silveira tivesse sido assassinada. Inúmeras foram as teorias populares para o caso: desde depressão, passando por dívidas com traficantes e agiotas, até possíveis relações sexuais com homens importantes na cidade, casados e com filhos, que a teriam assassinado para evitar escândalos ligados à reputação das mais nobres famílias de Rio Grande. Como diz um velho ditado, a língua do povo não tem osso, e o povo riograndino parecia gelatinoso de tanto falar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

À Boneca Russa

Para Daniela Delias

Saber-te casa
de silêncios

Me conforta

Pela ventana
de teus versos
ver-te a alma

Me anima

Saber-te riso
no meu peito
Saber-te rima

Me torna espera

Contínuo olhar
Ininterrupto
À fresta de tua porta.

sábado, 29 de setembro de 2012

Obánisè


Retumbam
Tambores
Antigos
Amores
Que de Angola vem

Clareiam
Trovoam
Explodem
Em fúria
As águas do bem

E na trovoada
Com força
Inovada
Reatualizada

Kawó!

Ele vem...

sábado, 22 de setembro de 2012

Teu lírio

Teu lírio é paz
É vida
É dádiva
Divina
Epifania.

Deixa-me morrer
Ao tê-lo
E ao sê-lo
Como o Triplo
Que ainda é Uno.

Quando eu morrer
Leva-me teu lírio
E eu morrerei em paz
E em canto.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Dormindo

Dormes.

E dos teus suspiros
Sonolentos
Exalam aromas
Tão puros
Tão meigos
Tão doces...

Contemplo
E me perco
E me deixo arrastar
Pela candura

De teus poéticos
Divinos
Matreiros
Encantos.

Anjo:
Em teu sonho
Eu encontro
Minha religião.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Palavra

Mãos - M.C. Escher

e eis que surge
a palavra
intraduzível
indigerível
indizível

que consome
que aflige
que reflete
o que não é

e que nos come
que se some
que dá fome
que só quer

ser aquilo
ser o filho
ser o homem
traduzido
em pura fé.

domingo, 19 de agosto de 2012

D

E ela
Incerta
Disserta
Conserta
Reseta
Vegeta
Acerta
Concerta
E certa
Percebe
Que nada acabou.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Cosmogônica

Ela juntou os meus cacos
E deles fez vida.

Ela pegou meus retalhos
E os reteceu.

E do que era morto
Inútil
Sem graça

Ela fez escassa
Morada
Sombria

E a ela deu luz.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

A Lisi

Para ler ouvindo The only exception - Paramore







Eu já passei por algumas coisas na vida.
Já acreditei no amor com olhos de criança que idealizavam a mulher amada e a tornavam intocável. Levei muito tempo para perceber que quem estragava tudo era eu, tornando a guria um modelo intocável de amor.
Um dia, então, resolvi partir para o oposto: me envolvi com alguém que não tinha nada a ver comigo, na esperança de preencher, no outro extremo, o vazio que o lado de cá sentia. Enxerguei um lado puro, bonito, que só eu via num poço de máscaras sem cor. Idealizei uma vez mais, e chorei pela segunda vez. Chorei porque senti que jamais daria certo com ninguém. Eu amava as criações que fazia das mulheres que tinha. Amava não a elas, mas sim àquilo que nelas eu fantasiava.
Desisti. Resolvi que o problema era meu. Era eu. Não elas. Qualquer pessoa com quem eu me envolvesse conseguiria frustrar os meus sentimentos por não ser aquilo que eu queria que fosse. Tão egoísta, né?
E aí eu te reconheci. Reconheci, mesmo, porque já éramos velhos conhecidos. E o meu comentário desprovido de romantismo e feito no calor de uma noite de carnaval e na ânsia de um superego afrouxado por etanol - mas resistente - à minha amiga e tua irmã nos levou a uma pizza cheia de más intenções.
Ali nós começamos a nossa história, com saída ao cinema, passagens pela Praça Xavier, sorvetes infindáveis, beijos acumulados e uma química sem igual. Escaldado, evitei as expectativas e fugi de ti o quanto pude. Mas tu me envolveste de forma tão certeira que não tive alternativas, pois já não sabia viver sem teus beijos. Mas negava-o. Ou melhor, afirmava que sentia falta de teus gestos, mas não de ti.
Pouco a pouco, fui pisando no desconhecido terreno que se me apresentava. E, aos poucos, porque não esperava nada, encontrei tudo o que eu sempre quisera e nunca tivera. O paraíso me encontrava por eu não mais buscá-lo. Fui surpreendido pela minha falta de esperança.
Tu me encantaste e me fascinas a cada segundo. Contigo eu me sinto pleno, feliz, eu tenho verdadeiros motivos para sorrir.
E, hoje, um bilhete inocente me foi a prova cabal disso tudo. Eu mexia na agenda, escrevia números, fazia contas mecanicamente, até que os meus olhos notaram letras lilases onde eu nada havia escrito. E estes mesmos olhos marejaram. E eu desatei a chorar feito criança. Aquele bilhete, singelo e descomprometido, havia sido a declaração de amor mais linda de toda a minha vida.
Não vou ser hipócrita e dizer que nunca chorei por uma guria. Já chorei oceanos, mas sempre por motivos ruins. Nunca o havia feito tanto, como agora o faço, por felicidade, por sentir um vazio enorme se perder no brilho dos teus olhos e no teu sorriso, a cada manhã em que despertamos juntos, ainda que não diariamente.
E eu te amo como nunca amei ninguém, e sei que também nunca fui tão amado. 

Felicidade, tu te chamas Lisiane.

Teu, Gi.
06 de julho de 2012
04:27

Na agenda


Notas
Cifras
Anotações.

Na agenda,
Guardando
Escritos,
Finanças,
O encontro:

Um bilhete
Escondido
Inocente
À espera
Do olhar
Desatento

Declarava
O amor
Da mulher
Que tirou-me

Do leito
Das tristes
Escolhas

Profanas

E arrancou-me
Um rio

Vertente
Latente
Choroso
Bondoso
Bobão

De lágrimas
Inesgotáveis
Inefáveis
Incansáveis

Que corriam
Que vertiam
Que sorriam

Em meu pobre
Meu carente
Meu contente
Meu demente

Coração.



quinta-feira, 5 de julho de 2012

Procurándote


Te procuré agua para tu sed
Te procuré alimento para tu hambre
Te procuré una manta
Para tus noches de invierno.

Te procuré todo lo que necesitabas
Lo que me pedías
Lo que no me decías
Lo que vendrías tal vez a pedirme
Y lo que jamás me pedirías

Y entonces
Cuando a tí te busqué
No me dejaste procurarte
Y a mí no me buscaste
Y a mí no me procuraste
Porque jamás lo quisiste
Puesto que yo todo te daría.

Desde entonces
Y hasta hoy
Busco un modo de olvidarte
Y procuro olvidarte
Ya que a tí
No te puedo procurar.

Tú, que a mí no me buscaste
Tú, que no me procuraste
Ni siquiera un pedazo
Un ínfimo, minúsculo espacio
Dentro de tu corazón.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Assalto



O mesmo caminho de sempre: Félix da Cunha até Dom Pedro I; Dom Pedro I até o fim do mundo, e aí dobrava-se à esquerda e chegava-se ao ponto do interurbano. No meio do percurso, duas praças e uma igreja marcariam a certidão do trajeto.
Chovia demasiado, era noite já, e eu não via a hora de chegar a casa. Tinha ido a Muquirana só para inscrever-me em uma seleção para professor substituto do Instituto Independência, já que andava desempregado e precisava de uma remuneração, mínima que fosse, mas efetiva, garantida mês a mês por um tempo indeterminado.
Aproveitei o ensejo e fui ver a Mariana, velha amiga de faculdade, empolgadíssima com seus afazeres na pós-graduação e em seu namoro finalmente bem resolvido com Juan, de quem eu, particularmente, não gostava muito, e por quem tampouco era bem quisto. Sempre que nos encontrávamos era assim: muito tempo para o chimarrão, mais tempo ainda para as atualizações recentes sobre um e outro. Não críamos em Facebook: as pessoas se esforçam demais nessas redes para parecerem o que não são – era o que eu dizia e afirmo até hoje.
Ela me contou sobre o mestrado, a vida com Juan, a difícil decisão de mudar para Ipiranga, a fim de conciliar os seus desejos e os do amado, economista. Eu, como sempre, fui o mais breve que pude, e relatei-lhe minhas mais recentes novidades, acerca do namoro com Lívia e da busca por um emprego – mestrado acabado, à espera de uma aprovação no doutorado...
Nove da noite, parti.
– Tchau, Mari!
– Tchau, Guto, te cuida!
Empunhei o guarda-chuva – desabavam águas torrenciais – e saí. Com o temporal, raras pessoas na rua. Um ou outro guardador de carros. Qualquer movimento parecia destruir a harmonia do silêncio daqueles caminhos alagados de águas e de nada.
Próximo à primeira praça, antes de chegar à Dom Pedro I, percebi que meus passos ecoavam. O chlep chlep dos pés n’água pareciam repetir-se infinitamente.
Atravessei a rua, contornei a praça, e então divisei o motivo de tanto ecoar: um vulto negro seguia o mesmo caminho que eu. Não fiquei analisando, para não dar na vista, mas pude antever um guarda-chuva e um perfil masculino. Temi pelo computador na mochila. O que fazia uma pessoa, à mesma hora que eu, na rua, debaixo de chuva, seguindo-me os passos?
Acelerei o passo. Ele acelerou também. Passei frente aos carros, no sinal. Ele também. Atravessei a Duque de Caxias. Ele também. Contornei a segunda praça. Ele também.
Desesperei-me. Sabe aquele dia maldito em que tudo o que tu tens é o dinheiro da passagem de volta pra casa e aparece um filho da puta e te ameaça de morte se não entregares tudo? Eu já antevia o meu fim. Teria que correr. Não que corresse mal, muito pelo contrário, mas aquela chuva, tão desesperada quanto eu, desencorajava qualquer tentativa de movimentação brusca.
Passei para a outra calçada, como quem fosse mudar de rumo. O sujeito também. Pensei em parar para amarrar os cadarços do tênis, a fim de deixá-lo passar e terminar com a angústia. Mas, e se me assaltasse? E se me tirasse o computador? E se me levasse os únicos dez reais que levava no bolso? Se me levasse a jaqueta, o casaco, o guarda-chuva? Nada podia ser pior que ficar sem nada, desabrigado, em uma cidade que não era a minha e obrigado a pedir auxílio a gente que com certeza temeria – como eu agora temia – um assalto e pensaria um zilhão de vezes antes de colaborar comigo. A violência urbana anda cada vez maior, e a gente não pode confiar nem na sombra.
E se, não encontrando dinheiro, o cara me matasse? Desse um tiro? Me aleijasse? Definitivamente, parar para amarrar os cadarços não estava nos meus planos. Precisava andar mais rápido, encontrar uma viva alma que pudesse me dar uma força ou ao menos despistar o transeunte.
Chlep chlep (chlep chlep). Chlep chlep (chlep chlep). Chlep chlep chlep chlep...
Já não andava. Voava. Cada passo parecia antecipar o ataque do maldito assaltante. Discretamente, olhei para trás, para conferir a distância que havia entre nós. Na primeira vez, tive certo contentamento, estávamos a uns vinte metros de distância, e parecia que, de fato, a minha sensação de perseguição se devia apenas ao medo de ser assaltado e ao barulho dos nossos sapatos batendo na água, que enchia a rua como se estivéssemos a sete palmos, um do outro. Na segunda vez, a distância havia diminuído consideravelmente. O som dos passos parecia cada vez mais atordoante.
Acelerei mais. Estava a ponto de articular as pernas em ângulos de noventa graus, de empreender uma corrida quase olímpica. Não olhava mais pra trás, apenas seguia com as pernas estaqueadas, mecânicas, afoitas. Enquanto o corpo se limitava, o espírito saltava, como que desejando assaltar o primeiro carro que visse pela fr...
BÍÍÍÍÍÍ!!!!!!! BÍÍÍÍÍÍ!!!!!!!!!!!
Não havia visto o sinal. Atordoado, segui em frente. Não divisei o vulto, e pude tranquilizar-me, até perceber que ele atravessara a rua e seguira, pelo outro lado, e ainda, o mesmo caminho que eu. Faltavam duas quadras para chegar ao ponto de ônibus. O interurbano sairia em dez minutos.
A distância entre nós estava menor, cerca de dez passos. Se é que eu conseguia contar os passos diante de tanta sofreguidão. Virei à esquerda. Cuidei o desconhecido pelas grades da casa da esquina. Viraria também. Faltava-me cada vez menos para chegar ao ponto, e o maldito indivíduo ficava cada vez mais perto.
Tropecei numa laranja podre, o musgo verde acinzentado da casca lavado pelas águas da chuva. Havia uma caixa delas, provavelmente vestígio dos dejetos de alguma feira livre ou quitanda. O cheiro ininalável entranhava-se em minhas narinas, aumentado pela chuva que não cessava de cair.
Foi então que encontrei a solução: uma faca na minha mochila, com a qual eu cortara a laranja que comera, a caminho da universidade. Seria ela a minha salvação! Se não a faca, ao menos as laranjas podres em que tropeçara, posto me sugerissem, pela lembrança, uma alternativa a tanta corrida.
Cheguei ao ponto de ônibus. O desconhecido se aproximava. Trêmulo, peguei o mais rápido que pude a arma branca que trazia na mochila. Em milésimos de segundo, vi o nó e o desenlace da perseguição sem fim: o anúncio do assalto, a aproximação, o esfaqueamento, o sangramento ocasionado pela perfuração, o resgate da mochila, o ônibus, a fuga.
O homem chegava cada vez mais perto, e eu por pouco não me autoperfurava de tanta raiva, empunhando a faca. Um ônibus se aproximava, mas não era o meu. Ele se aproximava cada vez mais, como que esperando o movimento cessar para empreender o ganho do dia. A faca apertava minha mão direita.
– O senhor sabe me dizer se aquele ônibus ali é o Ibualama 768?
– É, sim.
– Ah, que bom que o senhor tava aí. Enxergo muito mal e, em dia de chuva, sabe como é, minhas lentes parecem areia nos olhos. Certo que ele já ia tá passando, quando eu visse. Brigado!
O desconhecido subiu no ônibus. Eu, então, desci do cimo de minha ignorância, sentei no banco, e esperei pelo meu, em cinco minutos que duraram uma eternidade.

domingo, 1 de julho de 2012

A m'a celosa

Te quero comigo
No sorriso
Na dor
Em cada momento
Em pleno amor

Te assombram espinhos
Passado rancor
Um falso carinho
Inútil amor

Por isso, te digo
Afianço, Amor:
Ocupas o ninho
Que nadie ocupó.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Insônia






Se te guardo
E me movo
E não cesso
De ver-te
Em sonhos
Terríveis
Tormentos
Noturnos

É sabendo
Que sempre
Que a vejo
Desnuda
Em planos
Imagens
Proibidas
Hirsutas

Estás
Esperando
Além
De minha tela
Ilusória
Donzela
De sonhos
E impulsos

domingo, 17 de junho de 2012

Jealousy and Flirtation
Haynes King
(1874)
Os olhos
Flamejam
À luz
Inocente


Ciúme

Lampejo
Do Gozo
Latente

E o medo
Da perda
Daquilo
Que sentes

Ser teu.

domingo, 3 de junho de 2012

Poema perdido em noite de amor


Pra ti serão todos os meus poemas.
Todos os meus ais
Todos os lamentos
Todos os momentos
Felizes ou não.

Pra ti serão todos os meus sorrisos
E todo o meu siso
E até a moleza
Do meu despertar.

Pra ti serei fogo
E ar.

Pra ti serão todos os meus poemas.
Todas as palavras
Todos os mitemas
Todos os grafemas
Do meu poetar.

O beijo,  Auguste Rodin

Poema para a mais amada





Eu te amava
E tu dormias
E zeloso
Te guardava
Te sentia
Suspiravas
E ciumenta
Me dizias
Que em sonho
Me esperavas
Desde que tinhas nascido.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Dormias feito anjo, e nem desconfiavas do meu olhar, preso na sombra.
Teu corpo, envolto em panos, dançava nos meus sonhos com sete véus.
Te movias de maneira graciosa. E eu, cada vez mais instigado a registrar cada pequeno gesto, cada ínfimo sinal de teu corpo, me perdi em eterna contemplação.
Me encanta perceber a intensidade da efemeridade feliz dos nossos abraços. Só me assombra o medo de destruir com sonhos uma base sólida, construída sobre verdades e afetos que se mascaram em prol de um estável bem comum.
Ahh, quisera eu eternizar o momento em que te tive, levando-me pela mão aos descaminhos de uma certeza sem norte...
Contigo esqueço um mundo e crio o paralelo de um Éden sem fim.

Enquanto divago feito um louco, fechas os olhos para a realidade e sorris, como quem ouvisse as palavras que murmuro em pensamento.
E, ao ver-te assim, nos braços de Morfeu, sinto ciúmes do teu travesseiro.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Arde
Fere
Corta
Ressoa

Tarde
Pele
Porta
Magoa

Parte
Perde
Morta
Lagoa

E a sensação de dever cumprido.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Osíris

Partido
Em pedaços
Me recomponho

Dos fragmentos
De Ísis
Diversas.

Sou reconstrução:
se uma não preenche,
a outra complementa.

E de várias
E aos poucos
Me refaço.

E a cada nova deusa
Mortal
Endeusada

Nasce outra parte
Que arde
Enamorada

Remenda
Refaz
Me retraça

Até quebrar-se
Por inteiro
À espera de novas (c)asas.