sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Persistência da Memória


1. Cosmogonia

E
la havia simplesmente dito adeus por um bilhete, e tudo que ele soubera pela manhã era que estava morta, que havia sido encontrada na Silva Paes, esquina Duque de Caxias, quase em frente ao Croasonho, com um tiro na cabeça, sem sinais de violência. Alguns cogitaram assalto a mão armada; outros suicídio; outros, ainda, assassinato por motivos passionais. Sabia que Carol não era santa, mas ter, concretamente, “relações proibidas”, era demais para ele. Ela não conseguiria tanto. Não havia tempo, não havia disposição pra tanto. E mais, se envolver com alguém tão perigoso não seria o perfil da amedrontada Carolina, que exibia sorrisos para esconder aflições. Ele a conhecia, sabia que as coisas não eram tão simples e positivas quanto pareciam. Mas, se não havia sido assassinada, tampouco teria se matado, posto não haver qualquer vestígio de arma no local – embora, como bem lembrava Carlos, seu amigo de infância, nada impedisse que alguém fizesse a limpa nos pertences dela para trocar por pedras de crack na primeira oportunidade. “Só pode ter sido assalto, mesmo, Guto”, dizia o amigo, “até porque ninguém seria retardado de se matar no meio da rua...”
Fazia sentido, mas havia algo na história que não fechava bem. O bilhete, com parcas palavras, havia sido deixado na caixinha do correio. Devia ter sido escrito com pressa, ou nervosismo – a letra mais parecia um garrancho, e estava borrada devido à água da chuva, ou das lágrimas, de Carol. Mas choraria o quê? Por quê? Por que deixara aquele bilhete?
Muitas perguntas, resposta nenhuma. Na televisão, Julieta Amaral noticiava a cada momento a busca policial por respostas para o crime (teria sido realmente um?), bem como o levantamento da hipótese de que Carolina Silveira tivesse sido assassinada. Inúmeras foram as teorias populares para o caso: desde depressão, passando por dívidas com traficantes e agiotas, até possíveis relações sexuais com homens importantes na cidade, casados e com filhos, que a teriam assassinado para evitar escândalos ligados à reputação das mais nobres famílias de Rio Grande. Como diz um velho ditado, a língua do povo não tem osso, e o povo riograndino parecia gelatinoso de tanto falar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário