1. Cosmogonia
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la havia simplesmente dito adeus
por um bilhete, e tudo que ele soubera pela manhã era que estava morta, que
havia sido encontrada na Silva Paes, esquina Duque de Caxias, quase em frente
ao Croasonho, com um tiro na cabeça, sem sinais de violência. Alguns cogitaram
assalto a mão armada; outros suicídio; outros, ainda, assassinato por motivos
passionais. Sabia que Carol não era santa, mas ter, concretamente, “relações
proibidas”, era demais para ele. Ela não conseguiria tanto. Não havia tempo,
não havia disposição pra tanto. E mais, se envolver com alguém tão perigoso não
seria o perfil da amedrontada Carolina, que exibia sorrisos para esconder
aflições. Ele a conhecia, sabia que as coisas não eram tão simples e positivas
quanto pareciam. Mas, se não havia sido assassinada, tampouco teria se matado,
posto não haver qualquer vestígio de arma no local – embora, como bem lembrava
Carlos, seu amigo de infância, nada impedisse que alguém fizesse a limpa nos pertences
dela para trocar por pedras de crack na primeira oportunidade. “Só pode ter
sido assalto, mesmo, Guto”, dizia o amigo, “até porque ninguém seria retardado
de se matar no meio da rua...”
Fazia sentido,
mas havia algo na história que não fechava bem. O bilhete, com parcas palavras,
havia sido deixado na caixinha do correio. Devia ter sido escrito com pressa,
ou nervosismo – a letra mais parecia um garrancho, e estava borrada devido à
água da chuva, ou das lágrimas, de Carol. Mas choraria o quê? Por quê? Por que
deixara aquele bilhete?
Muitas
perguntas, resposta nenhuma. Na televisão, Julieta Amaral noticiava a cada
momento a busca policial por respostas para o crime (teria sido realmente um?),
bem como o levantamento da hipótese de que Carolina Silveira tivesse sido
assassinada. Inúmeras foram as teorias populares para o caso: desde depressão, passando
por dívidas com traficantes e agiotas, até possíveis relações sexuais com
homens importantes na cidade, casados e com filhos, que a teriam assassinado para
evitar escândalos ligados à reputação das mais nobres famílias de Rio Grande.
Como diz um velho ditado, a língua do povo não tem osso, e o povo riograndino
parecia gelatinoso de tanto falar.
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