quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sobre NH² - Nubia Hanciau e Nancy Huston na Livraria Vanguarda

Terça-feira, 26/10, fui à Livraria Vanguarda para assistir a uma palestra sobre a obra de Nancy Huston, escritora canadense cujos escritos são investigados pela professora Nubia Jacques Hanciau, do Programa de Pós-Graduação em História da Literatura da FURG. Lá, a dita docente-cientista exporia uma pequena parcela das deliciosas descobertas advindas das pesquisas que permeam sua carreira desde há um tempo considerável.
O que, em princípio, deveria ser apenas um evento acadêmico-cultural inovador, pela divulgação de investigações em espaço urbano e consequente aproximação entre a universidade e a cidade, foi para mim uma experiência única. A professora Nubia, com experiência, inteligência e elegância de causar inveja a qualquer humano, divagava acerca de Nancy Huston com uma paixão visivelmente intensa. O brilho dos olhos da nobre senhora demonstrava a alegria de uma menina a revelar aos amigos as viagens que fez.
E aí, entre todos estes momentos, surgiu aquele que me deixou mais sensibilizado: a ilustre narradora do percurso de vida de Nancy, a imensa conhecedora de suas obras, ao buscar uma pequena mas significativa coluna de jornal acerca de Espécie fabuladora, deixava transparecer certo nervosismo - suas mãos tremiam. Eu, que estava bem próximo à mesa da qual ela retirava a folha de papel, quedei encantado com tamanho amor.
Amor, sim, amor. Amor pelo trabalho feito e nervosismo, me pareceu, motivado pela vontade de que a exposição efetuada cativasse os ouvintes tanto quanto a obra de Nancy Huston a havia cativado. Ver aquela senhora, com toda uma longa trajetória profissional, tremendo ainda ao expôr um trabalho, deixou-me de tal maneira encantado que não consigo não almejar um futuro semelhante, no qual a experiência não permitiu o abrandamento do encanto.
Os longos anos de trabalho não transformaram Nubia em uma desgastada professora cansada e desencantada com sua profissão, algo tão comum atualmente. Pelo contrário, a tornaram cada vez mais encantadora e envolvente, num discurso de entorpecer a mais rígida das rochas. A maneira como expunha as narrativas hustonianas, o sorriso que estampava no rosto, o semblante de felicidade que trazia pela companhia de tantos amigos nesta primeira aproximação entre academia e sociedade disponibilizada pelo espaço Vanguarda eram reveladores da satisfação de nossa nobre anfitriã.
Mas, de tudo, repito, nada me deixou tão boquiaberto quanto as mãos daquela senhora. Ver Nubia Jacques Hanciau, em toda sua juventude, suar frio ao apresentar seu trabalho, fez com que eu intensificasse ainda mais o meu amor pelas Letras. A palestra sobre Nancy Huston, muito mais que um evento acadêmico, me foi a demonstração de que sim, existem amores eternos ainda, na profissão que escolhi. E quem não foi à Vanguarda, nessa terça-feira, perdeu o indescritível.

sábado, 23 de outubro de 2010

Ele já havia dito todas as palavras a ela. Todos os olhares tinham a mesma direção, e os lábios verbalizavam apenas repetições, que não cansavam de ser pronunciadas. Ela, em troca, já havia lhe dado presentes aos cinco sentidos: o perfume que o embriagava, a pele rosada que lho punha em delírio, o gosto do desejo que lhe deixava na boca, a voz entrecortada de seus hinos noturnos e o brilho eternamente incansável dos olhos de admiração.
Havia um não-sei-o-quê de reciprocidade, que lhes intensificava a cada dia a retroalimentação feliz dos afetos devotados. Amavam-se porque não queriam mudar o rumo do que sentiam. Amavam-se porque não podiam querer outra coisa. Amavam-se porque, juntos, eram completos.
E não havia obstáculos que não vencessem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

I

Amável poeta,
Que pensas fazer,
Se em tuas palavras
Só reina a morte?

Conduzes a vida
És seu próprio centro
Mas às tuas feridas
Não há cura ou sorte.

Inútil tentar
Teu vão alimento
Não há mais sustento
Não há quem se importe!

Definha, poeta,
Na terra.
E em seu seio,
Encontres a vida
Não tida:
Teu norte.

DCCIII

Ainda que a casca conserve a beleza
Ainda que os véus ocultem a essência
Ainda que os elos mantenham-se, frágeis...

Ela não muda.

Não muda
Porque não se pode alterar
Substâncias.

E os caminhos seguem seus rumos
Sozinhos, sem bússola ou prumo,
No indefinível das relações

Humanas.


Direcionamentos

Nasci.
Nasceste.
Nos desconhecemos.

Cresci.
Cresceste.
E nos avistamos.

Vivi.
Vivemos.
Eis que nos amamos.

Fiquei.
Partiste.
Sobreviveremos?

A Pessoa

O poeta é um só.
É tão só, completamente,
Que chega a sentir amor
Por quem já mais nada sente.

E os que lêem o que escreve,
Sua solidão não vêem,
Vêem amores que não teve,
Vêem amigos que não tem.

E assim, em tristeza morta,
Entre a lírica e a razão,
Sonha o poeta, e acorda
Imerso em sua vil solidão.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Et alii

Fossem os olhos de ressaca,
Fossem os atos impensados,
Fossem as vagas do mar a tragar-me.

Fosse o brilho das pérolas
Com que me encaravas,
Ou o perfume de rosas
Que, sublime, exalavas.

Antes fosse esse tudo
A te compôr
A causa de tanto temblar.

Mas nada.
O que me movia as vontades
E a sede de lâmina e sangue
Eram os pavões, os reflexos
A buscarem o teu - meu! - olhar.