Ela questionou. Ele negou. Disse que não suportava mais a desconfiança dela. Penalizada, ela beijou-lhe a mão: o látex ainda impregnava os dedos do rapaz. Separaram-se.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Ritual
Arnaldo já
conhecia o roteiro: piscadinha de olho, olhada fixa e esboço de um sorriso, uma
desculpa pra se aproximar e pronto, era só arrastar a moça pra um motelzinho
qualquer e se satisfazer. Tinha conseguido mais uma safada pra preencher a
lista não realizada na adolescência.
Algumas se
faziam de difíceis, outras já iam abrindo as pernas tão logo desciam do carro.
Outras, ainda, não chegavam sequer a sair dele. O mapa feminino era sempre o
mesmo: mão nas coxas enquanto dirigia, um carinho nos cabelos – pra não parecer
tarado demais – e, estacionasse em algum lugar discreto, puxava a mulher pelo
pescoço e já iniciava carinhos mais ousados, que a minha pudicícia de narrador sem
público-alvo me impede de contar.
E assim
passavam Claudinhas, Joanas, Marinas, Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas
conheciam o melhor de Arnaldo, como se o tivessem por uma única vez. E
realmente o tinham em dose única, se é que alguma vez o tivessem de fato.
Ocorre que
Arnaldo era casado, mas não conseguia controlar os impulsos que lhe
atormentavam o espírito. Queria manter-se fiel a Silvana, amava-a mais que tudo
no mundo. Não cansava de dar-lhe presentes e de elogiá-la, mas também não
conseguia dar conta dos próprios desejos. Já havia feito de tudo: masturbação
diária, água gelada a cada maldito pensamento, abstenção sexual para tentar perder
o desejo, vídeos na internet.
Não adiantava
nada. Ao passar do primeiro par de pernas, Arnaldo dava um jeito de pular a
cerca e entrar no paraíso momentâneo do prazer proibido. E, a cada gozo, sentia
uma culpa incomensurável. E tremendamente hipócrita, porque não havia remorso que
o fizesse frear a vontade imensa de burlar as regras do amor correspondido.
Assim, para
tentar parecer menos cafajeste, Arnaldo elaborou um código próprio de conduta: transava
apenas uma vez com cada mulher, quase sempre desconhecida, e assumia um nome
diferente com cada uma, uma nova identidade a cada orgasmo. A cada gozo morria
o traidor e nascia um justiceiro, que fugia do local repugnante tão logo
sentisse o cheiro a sexo recém praticado. Aquele justiceiro, um dia, se
corrompia aos prazeres da carne. Morria no gozo e dava origem a um novo,
preocupado em reparar os erros do anterior.
E, para
expulsar de vez o gosto do pecado e expiar os maus passos de seu antecessor, o justiceiro
sempre cuspia nas mulheres entregues. Isso mesmo. Claudinhas, Joanas, Marinas,
Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas cuspidas, recusadas, repugnadas.
Algumas se ofendiam e resolviam tirar satisfações. Outras gostavam e pediam
mais. Todas ficavam a ver navios, sempre.
Um dia, Simone
conheceu João. O mesmo roteiro idiota de todo homem: piscadinha de olho, olhada
fixa e esboço de um sorriso, uma desculpa pra se aproximar e pronto, já queria arrastar
a moça pra um motelzinho qualquer e se satisfazer. Ela resistiu, mas depois deu
o braço a torcer. Esse era até gostosinho. Impôs, contudo, uma condição:
– Vou no meu
carro.
E foram. O
rapaz, mais previsível do que nunca, acariciou os cabelos dela antes de começar
a apertá-la como se ela fosse um pacote de bolas de massagem. Em dez minutos já
haviam terminado. Ele soltou um gemido, meteu com mais força, e jogou todo o
peso em cima dela, como se ela fosse um pedaço inanimado de qualquer coisa.
Simone ficou
com nojo. Cuspiu na cara do precoce soberbo e foi embora. Sem dizer nada, nem
deixar telefone.
E desde então
Arnaldo vai todas as tardes ao banco, na esperança de reencontrar Luíza.
A Persistência da Memória
1. Cosmogonia
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E
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la havia simplesmente dito adeus
por um bilhete, e tudo que ele soubera pela manhã era que estava morta, que
havia sido encontrada na Silva Paes, esquina Duque de Caxias, quase em frente
ao Croasonho, com um tiro na cabeça, sem sinais de violência. Alguns cogitaram
assalto a mão armada; outros suicídio; outros, ainda, assassinato por motivos
passionais. Sabia que Carol não era santa, mas ter, concretamente, “relações
proibidas”, era demais para ele. Ela não conseguiria tanto. Não havia tempo,
não havia disposição pra tanto. E mais, se envolver com alguém tão perigoso não
seria o perfil da amedrontada Carolina, que exibia sorrisos para esconder
aflições. Ele a conhecia, sabia que as coisas não eram tão simples e positivas
quanto pareciam. Mas, se não havia sido assassinada, tampouco teria se matado,
posto não haver qualquer vestígio de arma no local – embora, como bem lembrava
Carlos, seu amigo de infância, nada impedisse que alguém fizesse a limpa nos pertences
dela para trocar por pedras de crack na primeira oportunidade. “Só pode ter
sido assalto, mesmo, Guto”, dizia o amigo, “até porque ninguém seria retardado
de se matar no meio da rua...”
Fazia sentido,
mas havia algo na história que não fechava bem. O bilhete, com parcas palavras,
havia sido deixado na caixinha do correio. Devia ter sido escrito com pressa,
ou nervosismo – a letra mais parecia um garrancho, e estava borrada devido à
água da chuva, ou das lágrimas, de Carol. Mas choraria o quê? Por quê? Por que
deixara aquele bilhete?
Muitas
perguntas, resposta nenhuma. Na televisão, Julieta Amaral noticiava a cada
momento a busca policial por respostas para o crime (teria sido realmente um?),
bem como o levantamento da hipótese de que Carolina Silveira tivesse sido
assassinada. Inúmeras foram as teorias populares para o caso: desde depressão, passando
por dívidas com traficantes e agiotas, até possíveis relações sexuais com
homens importantes na cidade, casados e com filhos, que a teriam assassinado para
evitar escândalos ligados à reputação das mais nobres famílias de Rio Grande.
Como diz um velho ditado, a língua do povo não tem osso, e o povo riograndino
parecia gelatinoso de tanto falar.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
À Boneca Russa
Saber-te casa
de silênciosMe conforta
Pela ventana
de teus versos
ver-te a alma
Me anima
Saber-te riso
no meu peito
Saber-te rima
Me torna espera
Contínuo olhar
Ininterrupto
À fresta de tua porta.
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