terça-feira, 30 de junho de 2009

Hoje caminhei pelo vale das Hortênsias. E cheguei a ver-te no rosto de outra ninfa. E isso foi tão doloroso... Ela usava os mesmos trajes, tinha o mesmo caminhar e o mesmo olhar enigmático. Eu poderia ter me apaixonado por ela, pensei, se ela não fosse tão parecida contigo e não estivesse num lugar tão rememorável.
Abandonei-a. Sozinho, em lentos passos, fugi daquele lugar: fui às lembranças. E eu que pensava que elas estavam se apagando... Jurei que, depois de a ter encontrado com Pã, me afastaria (afinal os vales são domínio dele, e eu nada tenho a fazer se sou um plebeu sem reinos, vestes ou veículos reais).
De repente me vi nas nossas águas. Ou melhor, nas minhas águas. Naquelas águas que tanto contemplamos e às quais recorro toda vez que necessito compartilhar com elas as lágrimas humanas que tenho guardadas. Sim, eu sou humano. Sofro, erro, choro, lamento, tenho recordações e sinto dores. Mas não me subestime por isso.
Também senti o vento. O ruidoso e furioso vento que assolava o meu caminho. O vento que poderia ter sido um beijo teu ou até mesmo um tapa de ódio e que, só por representar um contato, já trariam o natural sorriso das nossas cômicas e sempre inadequadas atrapalhações.
Agora ouço música. Essa não esteve presente em nossa história. Acho que nunca a ouvimos em ocasião nenhuma, jamais comentamos algo sobre ela ou vimos um filme que a contivesse em sua trilha sonora. Mas (não sei porque diabos!) ela me traz também uma nostalgia tristonha.
Todos os signos estão contra mim hoje. Todas as hortênsias estavam, assim como as águas não vistas e o vento sentido! Como se não bastasse... agora ouço outra música. E essa faz questão de intensificar as sensações da outra, em letra e melodia.

domingo, 28 de junho de 2009

Sandice

Não sei o que penso.
Não sei o que digo.
Não sei.

As musas e ninfas me têm enlouquecido.
Clio parece haver se deleitado com Pan,
e Eco me vê como a fonte que reflete Narciso.

Por que não encontro o Éden cristão?
Por que sou pagão não mereço Par'íso?
Clio me quis, não soube mantê-la...
Eco, a quero e não sei como tê-la.

Em verdade vos digo o que um anjo me disse:
"Deixai de buscar tantos sofrimentos
Se ficares - sempre - sozinho em lamentos
Não serás feliz como um dia sentiste."

E, só, andarei entre trevas do Limbo
E não saberei que destino tomar
Se volto a Clio e lhe peço abrigo
Se dedico a Eco um amor por amar

Não sei o que penso.
Não sei o que digo.
Simplesmente... não sei.


*Escrito há mais de um mês, mas não havia sido publicado ainda.

Remorso

Talvez eu só tenha imaginado
Talvez tudo fosse diferente
Se eu tivesse pensado na gente
Se eu quisesse ser teu namorado

E se sofro, agora, consciente
E se escrevo, com dor, estes versos
É porque me tranquei no universo
De um bom tempo em qu'inda era contente.

E, assim, só por ver-te e não ter-te
Em mia dúvida sofro desdita.
Se, algum dia, pra mim, fostes vida,
Hoje a Morte me toma, inerte.

Rumo




De todas as coisas que já me revoltaram, a maior delas até hoje foi a tríade ascosa que formaram Ártemis, Éris e Tífon. Aparentemente armada com as flechas de Eros, Ártemis mirava-me com olhares esquivos, como se esperasse a primeira distração da corça para acertá-la. A corça, confusa com o percebido-sorrateiro-futuro-bote, deliciou-se com a possibilidade do despertar para o Olimpo novamente. Ao seu lado, uma bela náiade lhe solicitava apoio e colaboração. Éris, então, como não poderia deixar de ser, enegreceu o ambiente com seu ar serpe. As douradas maçãs das Hespérides perderam o brilho, e a flauta de Pã perdeu seu valor.
As coisas só passaram a ficar piores quando deparei-me com Tífon e seus caninos a cercarem a pobre deusa. Quis alertá-la, mas já era tarde: aquela que tanto espreitara a corça fora pega inesperadamente pelo monstro das caninos gigantescos. Éris, que conseguia mirar a mim, à corça, à deusa e ao monstro simultaneamente (não sei se por obra de Argos, não sei se por sua visão periférica), deliciava-se com a cena, e fazia o possível - e o impossível - para ferir aquela corça imobilizada pela situação presenciada - nunca havia visto tantas possibilidades de concretização dos males.
Dos componentes da tríade, o que me deixou menos receoso (em mínima parte) foi o monstro que, apesar da aparência, tinha olhos que me pareciam um tanto quanto bondosos. Também foi, coincidentemente, o que menos aterrorizou a corça, que não se importou de interagir com ele.
Rumaram os quatro ao Olimpo, para participar do cortejo de Afrodite, que vinha de outros montes. Lá encontraram outros deuses e deusas, e a corça, sentindo-se acuada, pretendia fugir. Não poderia fazê-lo: já que ela fora em parte culpada pelo rumo que tomara - ninguém lhe ordenou que andasse por aqueles campos - , restava-lhe apenas a solidão costumeira em meio à multidão.
Pouco a pouco, formaram-se triângulos, quadrados, hexágonos... e a corça, perdida, permanecia numa reta que tinha duas extremidades bem definidas: C e A. [...]

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Relações sintáticas


Não sei porque insisto em ver estas imagens que tanto me doem. Um tanto masoquista, visito tuas fotos mais uma vez e vejo nelas a ausência de um "eu" que um dia fez parte de um "nós" e era feliz. O sujeito que constituía tua frase teve seus predicativos substituídos, e os antigos predicativos agora pertencem a outro sintagma nominal. "Triste" passou a ser o modificador do núcleo isolado que dantes formava par num sujeito composto que era uno.
Como todo bom sintagma - deslocável e substituível - tive minhas propriedades fundamentais postas em prática, e agora sou apenas a possibilidade de construção. O que enche meu verbo de adjuntos, intensificando-o, é o fato de que sou eu a conjunção causal desta oração e deste tempo verbal que tende ao pretérito perfeito, mas que ainda não se consolidou como tal.
Quatro porquês se colocam em meu texto, referindo-se a diferentes pronomes (todos os pessoais singulares e um único do número plural). O pronome plural parece estar-se apagando, e o primeiro dos singulares também, em relação ao segundo; fortalecem-se apenas o segundo e o terceiro, que em instantes tornar-se-á o primeiro, quando este houver sido borrado de vez.
Resta-me apenas aguardar por um modificador, ou por um advérbio que torne perene a significação do verbo mais importante que tenho a oferecer em forma de substantivo. Superlativos hiperbólicos me vêm à mente, e lembro que, apesar da aparente minúcia insignificante proveniente da tua forma, tinhas para mim a melhor substância, e o valor que te devotei não encontrei mais em nenhuma enciclopédia linguística.
Não sei se isso tem alguma função apelativa por detrás da poética, mas sei que há uma função não identificada por Jakobson: a transbordante, caracterizada pela emergência de palavras que se dão quando o enunciador não consegue mais suportar a realidade discursiva com a qual se defronta. Em algum momento esgotam os adjetivos, os adjuntos, os verbos, os complementos. Resta apenas um núcleo que, sozinho, só consegue interagir com verbos sôfregos e intransitivos.
Resta também um substantivo abstrato que impossibilita a explicitação do simples - manifesto de forma complexa - nessas linhas. Mas Clio conseguirá compreendê-lo.

sábado, 13 de junho de 2009

Soneto Zero

Que medo que me toma neste instante
De ver-te e ser por ti surpreendido
Deixando, pouco a pouco, o ser amigo;
Querendo, sem saber, ser teu amante.

Sei que também temes um flagrante!
Temes que a vejam assi comigo
Porque me vês também como querido
Que não sossega nunca, contemplante.

Por isso eu e tu somos amantes
Porque nos vemos ambos os vencidos
A quero e não sei em qual momento

E como já houvera dito antes,
O teu lamento triste sempre sigo
A fim de aliviar o meu tormento.