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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O sanduíche


E tudo o que tu sentes é fome. Uma dor imensa, como se de repente alguém tivesse enfiado uma faca na boca do estômago e gotejado ínfimas porções de ácido, tão ínfimas quanto ininterruptas, capazes de causar as dores mais agudas que um ser já imaginou sentir.
E é com essa mesma dor que tu entras no trem. De todas as dores que tiveste até aqui, a dor da fome é a que mais te dói. Não te dói tanto a ausência da namorada, nem os almoços com a família e as risadas fraternas. Porque, quando tu sentes fome, toda lembrança com os entes queridos se vai, deixando apenas um minúsculo fragmento. Uma  imagem congelada, que te faz encher a boca de líquido sedento, a recordar o nunca mais tido feijão com arroz, a torta de chocolate, a lasanha de panqueca, o sorvete de baunilha com petit gâteau que aquele restaurante barato da esquina finge que faz, pra chamar cliente. Quando a fome te ataca, olhas para o lado e enxergas lanche até nos braços da poltrona.
E aí então tu te sentas e, como se Murphy estivesse ao teu lado como nunca, tu vês a um asiático – porque esses caras têm sempre tudo à mão?! – tirando da mochila um belíssimo panini, sanduíche suculento com recheio saindo pelas bordas das duas metades de uma baguette. Um não, DOIS sanduíches, é o que ele tira.
E aí tu percebes o quanto o teu espírito pode ser evoluído. Porque suportar o cheiro delicioso daquele sanduíche quentinho quando tu sentes uma fome pré-histórica; ver o asiático com seus fones de ouvido e seu ipod de última geração, mordendo com vontade aquele pedaço incrível de farinha de trigo processada e assada com ovos e óleo; notar que ele percebeu que você está olhando com a maior inveja do mundo praqueles dentes que trituram com vontade cada mordida e, após isso tudo, não fazer nada, é coisa de gente muito, mas MUITO, espiritualizada.
E te faltam ainda duas horas de viagem. O desgraçado – e é desgraçado porque parece, sem o saber, estar se regozijando com a tua dor – fecha os olhos que a natureza já não deixou muito abertos e escuta, tranquilo e com a fome saciada, suas canções Techno. Ao menos é isso o que a gente imagina, quando tudo o que enxerga é um obstáculo para o mais importante: a metade de sanduíche que ele não comeu.
E aí tu pensas em tudo: “acordo o cara e pergunto se tu ne veux plus?”, “dou um abraço nele e peço gentilmente o pedaço que ficou”, “me humilho e peço de joelhos que me conceda a dádiva de comer uma migalha que seja daquele divino pedaço de pão”, “pergunto se ele não quer me vender o resto”, “passo rápido e, aproveitando-me do fato de que ele está de olhos fechados, roubo o pão e finjo que nada está acontecendo”.
Mas a maldita moral e educação que aquele ser cerceador chamado “mãe” te deu, como sempre, destrói toda a possibilidade de sucesso em uma operação como essa, já que tu não te permites nem sequer operacionalizá-la. E então tu pensas em fechar os olhos também e em dormir, porque o sono te impede de sentir fome. Mas se passa justamente o contrário: é a fome que não te deixa dormir.
E tu passas mais uma hora e meia olhando pr’aquele pedaço de resto alheio, com um desejo que nem um cão poderia representar. Até os pedaços verdes de alface que saem pelas laterais te parecem saborosos. E, ainda que sejas alérgico a tomate, todas as minúsculas partes vermelhas que enxergas se apresentam a ti como convite tentador.
O tempo da tortura termina. O trem chega ao lugar de destino, e então tu te despedes daquela bela visão que te atordoou durante horas que pareceram milênios. O asiático dorminhoco vai à frente, portando ostentoso o troféu da tua fome. E aí tu te despedes definitivamente da tua miragem. O problema é que ele também se despede. Ele, o asiático. Ele, o filho da puta que te fez sentir fome durante duas horas, que te fez olhar durante duas horas para uma metade de sanduíche que parecia a descoberta de um oásis no deserto, também se despede do seu resto de sanduíche. A lixeira é o destino final da tua fome, do teu objeto de desejo.

E, vendo isso, nada mais te resta a não ser crer que, merda, teria valido a pena roubar o sanduíche.

domingo, 8 de setembro de 2013

Um amor sem medidas


Marina amava Pedro incondicionalmente. À hora do café, preparava com cuidado cada pormenor: a geleia de amoras de que ele tanto gostava, as fatias de pão recém-torrado, o café recém-passado-e-adoçado pronto para tomar. A goiabada milimetricamente cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares, tudo pronto, tudo à espera que as geleias unissem o que as mãos de destino de Marina já haviam disposto. Tudo para e por Pedro.
Pedro era a casa da amada. A ele ela recorria sempre que as coisas não davam certo, na enfermaria. Eram os seus braços de afago o que confortava a dor de ter de suportar o olhar insuportável de reprovação de Edite a cada nova tarefa. Eram seus olhos de infinito a bússola que assegurava a Marina o norte próximo de um futuro inabalável. Era sua voz de calmaria o que impedia que as tempestades em copo d’água de Marina se alastrassem pela casa, deixando cinza até o mais límpido dos sóis. Pedro era porto seguro, cais, razão.
Mas Pedro não quis saber de geleia, goiabada, tampouco de café adoçado. Queria manteiga, queijo e café instantâneo puro, sem açúcar. Cansara daquela baboseira de lar e de pares que só ela, na cabeça dela, no mundo mágico dela, havia inventado. A geleia de amoras há muito perdera o sabor, perdera-o com o acento. A goiabada, sempre repetidamente igual, parecia já viscosa pela ação do tempo. Pedro não quis tomar o café, e foi trabalhar com o estômago farto e pesado de tantas coisas não ditas e entaladas na goela.
Marina chorou copiosamente.  Há muito desconfiava que Pedro tivesse outra mulher. “Isso foi trabalho de amarração, guria”, havia dito uma amiga. Pedro perdera as referências: estava frio, seco e distante. Vinha diminuindo as porções de geleia há muito, e naquele dia sequer empunhara o talher. Estava farto. Teria se decidido e resolvido trocar de casa, de braços, de esposa? Tantos anos de dedicação pareciam desmoronar como manteiga derretida em pão quente.
Ligou para Paulo. Se Pedro tivesse alguém, Paulo saberia. Se não tivesse, ao menos forneceria o abraço amigo. Paulo era forte, do tipo centrado, que não se deixava corroer pelas emoções. Se houvesse lógica na hipotética traição de Pedro, ele o diria. Se não, convenceria Marina, por A mais B, de fantasia extrema, e ela até se sentiria culpada. “Vem pra cá e nós conversamos com calma”, disse ele.
Foi, então. Ele a esperava com chá de hibiscos e um Floresta Negra banhado em cerejas. Paulo tinha desses requintes. Conversaram a noite inteira e, pouco a pouco, Marina deixou-se levar pelo raciocínio áspero de Paulo, tão oposto à visível sensibilidade que ele demonstrava à mesa e aos abraços.
Entre um chá e outro, uma fatia de bolo e outra, acabaram abrindo uma garrafa de vinho e comendo as cerejas debaixo dos lençóis. Marina viu em Paulo o acender da lareira em chamas que Pedro há muito havia apagado. Se Pedro era frio como rocha, Paulo era candente como ferro em brasa. Com Paulo, Marina não sonhava porque não tinha tempo para dormir. Marina, finalmente, reconhecia em outro o ardor amoroso que o marido nunca demonstrara.
Naquela noite, Marina descobriu que amava Paulo incondicionalmente. Pela manhã, à hora do café, preparou com cuidado cada pormenor: a geleia de amoras de que ele tanto gostava, as fatias de pão recém-torrado, o café recém-passado-e-adoçado pronto para tomar. A goiabada milimetricamente cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares, tudo pronto, tudo à espera que as geleias unissem o que as mãos de destino de Marina já haviam disposto. Tudo para e por Paulo. Um amor sem medidas.
                Paulo saiu cedo para trabalhar, e disse-lhe, cheio de afeto, que compreenderia que ambos houvessem se deixado levar pela necessidade de afeto e manteria segredo, se ela desejasse regressar a casa. Pedro ligou para Marina, pedindo perdão pela grosseria, reconhecendo seus erros e sentindo-se culpado por não ser-lhe um amante à altura.
                Marina ficou em dúvida. Sabia que com Paulo seria ardorosamente mais feliz, mas não tinha certeza da durabilidade do ardor, da felicidade, sequer tinha certeza da durabilidade de sua própria certeza. Além disso, Pedro esfriara pouco a pouco, mas nunca lhe dera reais motivos para desistir do amor devotado. E havia, também, os vizinhos. Que diriam eles, disso tudo? Tanto tempo erigindo casa e relacionamento, causando inveja aos olhares alheios, desfilando pelas festas e colunas sociais para ver tudo desmoronar por conta de um desagrado repentino de geleias de amora, goiabada e café passado? Não, não se deixaria levar por impulsos impensados. Estava decidida: retornaria aos olhos de infinito de Pedro.
                Nove horas da manhã a campainha tocou. Pedro abriu a porta e, com ela, um sorriso iluminou a sala. Depois notou o cesto, à espera de quem sorveria um novo café da manhã: pão francês quentinho, pronto para derreter a mais dura das manteigas, queijo no lugar da goiabada, café instantâneo e uma bela fatia de Floresta Negra com cerejas.
- Você se comporte, ela já está desconfiando.
                E Paulo, mais uma vez, comeu cerejas debaixo dos lençóis.




terça-feira, 3 de setembro de 2013

YIN E YANG

Imagem retirada do Google, sem referências autorais


Aí está algo que sempre me deixou intrigado, na vida: o símbolo do Yin-Yang. Aqueles dois girinos, um sobre o outro, representantes das energias do universo, com seus princípios ativo e passivo, masculino e feminino, branco e negro, sempre me incomodaram de alguma forma.Essa representação do mundo como união de oposições, como necessidade de complementaridade entre as coisas, me inquietava. Porque o Yin-Yang explica a imprescindibilidade de um outro, de um elemento contrário que imponha uma pequena gota de si para desacomodar a nossa porção pacífica de comodidade.  E isso atordoa, atormenta, deprime.
Nasci sozinho, e nunca tive uma gota negra que me movesse da comodidade. Aliás, nunca tive comodidade, sempre fui uma porção líquida de alma que se estendeu pelo mundo em busca de uma gota capaz de dar-lhe forma e vida. Meus pais, findos desde a minha cosmogonia, não me deixaram uma lembrança, um amuleto, uma marca que fosse da sua presença e do seu afeto. Restaram apenas documentos históricos relatando os acontecimentos, e uma ou outra foto para a qual sempre olho, como que buscando qualquer identificação que me permitisse reconhecer ali um dos meus progenitores. E então crio mundos, invento histórias, conto relatos harmoniosos de família e brinco de ser criança escondida, à espera do momento em que o pai, sabendo do esconderijo, finja ainda não ter lhe visto e faça uma cara gostosa de espanto, dando ao pequeno a satisfação de haver enganado um superior.
Mas volta e meia mergulho no poço fundo da realidade e me pego só, ínfima gota isolada que é incapaz de fazer diferença no todo porque lhe é impossível integrá-lo. Nunca tive mulheres, nem amigos, nem nada que desse qualquer ideia de laço afetivo. Verdadeiramente sinto que não sou capaz de completar ninguém e que ninguém nesse mundo será capaz de, um dia, dar-me qualquer ilusão de plenitude.
E hoje, aos 66 anos de idade, pude compreender enfim o porquê disso tudo. Seis, número da conciliação entre opostos, da harmonia – doce ironia – entre os princípios masculino e feminino. Yin e Yang. As dores começaram há dois meses, e o que escondo tem se feito mais aparente a cada dia. Parece que irá romper todas as minhas barreiras e gerar um novo ser.
Ao receber o resultado dos exames, estremeci. Senti um misto de dor e regozijo, como se houvessem pingado ácido em uma ferida aberta e essa dor, de alguma forma, trouxesse-me a felicidade de fazer-me sentir vivo, de compreender que a vida tinha sentido e que eu queria, sim, queria vivê-la. Que o problema não estava em mim, mas que alguma instância divina – sabe-se lá a causa – resolvera dar-me a completude que eu não encontrara em nada no mundo.
Nasci órfão, vivi sozinho e nunca tive ninguém. E apenas aos 66 anos de idade descobri que, devido aos labirintos da genética, meu fenótipo yang guarda um imenso e disforme yin. A dor que me abre feridas e pinga ácido nelas é uma pequena gota de yin que cresce e que, lutando contra aquilo em que eu sempre cri, desacomoda a porção não muito grande de certezas da minha identidade.
Entretanto, apesar disso, o que deveria ser uma tragédia, tornou-se para mim um confuso conforto. Nunca tive a gota negra da alteridade porque me basto, meu yang é casca que guarda a completude. Aos 66 anos de idade, finalmente alcancei o duplo equilíbrio que a numerologia tanto previra.
E, mais uma vez, a alteridade passa a atormentar-me. Que dirão? Que farão? Sou um alien, um monstro, um demônio?

Nesse mundo de farsas, resolvo então vestir a máscara que por tanto tempo cri essência, e passo por ti, leitor, como um qualquer. Não serei cobaia de experimentos mirabolantes nem notícia de tolos jornais alienados e sem conteúdo.A solidão sempre foi minha única e sóbria companheira, e é dela que hei de valer-me até que meu sol se ponha. Ser um novo Tirésias trouxe-me sabedoria o suficiente para saber que as normas desse mundo são vãs demais para compreender a complexidade desse eu-outro que habita em mim. Dentro e fora, casca e fruto, yang e yin.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

TDJFRPM 3

É como se eu estivesse alimentando a minha própria morte. Eu sinto ele mover-se dentro de mim como se um monstro me roesse as vísceras. Eu sangro. Eu sangro e choro e dói pensar que ele destruiu todos os meus sonhos. Nunca mais serei a mesma, e devo isso a ele. Ele mudou a minha vida, se é que em algum momento eu tive uma. Se é que eu ainda tenho uma. Se é que agora eu tenho uma. E o que me revolta é não saber-lhe sequer a fisionomia, porque isso talvez redimisse o meu asco à previsão. E se ele for copiado? E se ele for cópia? E se eles forem, um ao outro, o complemento que falta à minha morte?

TDJFRPM 2

Mal tenho conseguido dormir. Essas lições têm me atordoado demais. Não consigo mais fugir nelas. Nem do desprezo dela. Nem do olhar de reprovação. Ela me odeia desde a primeira vez que me viu, é transparente. E, se nem ela, que só tem a mim, me quer, que motivo tenho eu pra permanecer? Nós só temos um ao outro, e ela insiste em renegar a minha presença como se eu fosse uma chaga aberta no pântano da sua existência, esperando o momento certo pra anunciar a tetania de uma dor que não tem remédio.

sábado, 30 de março de 2013

TDJFRPM 1

Vomitei de novo. Minha mãe anda desconfiada.
E confesso que, por mim, teria vomitado de novo. E mais. Muito mais. Teria vomitado para expurgar o asco que me toma cada vez que lembro do gosto, do cheiro, do jocoso vestígio de esgoto que me obrigaram a abrigar. Se ao menos eu tivesse escolhido esse fardo! Mas não. Todos querem - e se sentem no direito de querê-lo - que eu goste, geste e ame a marca da minha dor.
Rosa diz que Deus castiga, e que ele não nos dá uma cruz que a gente não possa carregar. Só pra começar, eu não sou Ele e, se fosse, teria matado aquele infeliz no primeiro pensamento dele, no primeiro contato simulado.
E, se Deus precisa nos dar dores - e quem pôs o próprio filho na cruz pra comprovar sua autoridade não pode me julgar - é porque ele é incapaz de amar. Ou será que sou eu que amo tanto esse germe do sofrimento que desejo matá-lo por um amor confuso - compaixão e zelo?
O filho da dor. É impossível que ele nasça e que eu o ame de um afeto tranquilo. Nem Iracema - nem a romântica literatura! - conseguiu conviver com isso.
E, se Deus pôs o filho - primogênito e único - na cruz, pelo bem de todos, por que não posso eu fazer o mesmo? Não seria a paz de espírito um bem também? Paz de espírito minha e desse inocente que já carrega, na testa, a marca de Caim.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Enganos






Ela questionou. Ele negou. Disse que não suportava mais a desconfiança dela. Penalizada, ela beijou-lhe a mão: o látex ainda impregnava os dedos do rapaz. Separaram-se.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ritual


Arnaldo já conhecia o roteiro: piscadinha de olho, olhada fixa e esboço de um sorriso, uma desculpa pra se aproximar e pronto, era só arrastar a moça pra um motelzinho qualquer e se satisfazer. Tinha conseguido mais uma safada pra preencher a lista não realizada na adolescência.
Algumas se faziam de difíceis, outras já iam abrindo as pernas tão logo desciam do carro. Outras, ainda, não chegavam sequer a sair dele. O mapa feminino era sempre o mesmo: mão nas coxas enquanto dirigia, um carinho nos cabelos – pra não parecer tarado demais – e, estacionasse em algum lugar discreto, puxava a mulher pelo pescoço e já iniciava carinhos mais ousados, que a minha pudicícia de narrador sem público-alvo me impede de contar.
E assim passavam Claudinhas, Joanas, Marinas, Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas conheciam o melhor de Arnaldo, como se o tivessem por uma única vez. E realmente o tinham em dose única, se é que alguma vez o tivessem de fato.
Ocorre que Arnaldo era casado, mas não conseguia controlar os impulsos que lhe atormentavam o espírito. Queria manter-se fiel a Silvana, amava-a mais que tudo no mundo. Não cansava de dar-lhe presentes e de elogiá-la, mas também não conseguia dar conta dos próprios desejos. Já havia feito de tudo: masturbação diária, água gelada a cada maldito pensamento, abstenção sexual para tentar perder o desejo, vídeos na internet.
Não adiantava nada. Ao passar do primeiro par de pernas, Arnaldo dava um jeito de pular a cerca e entrar no paraíso momentâneo do prazer proibido. E, a cada gozo, sentia uma culpa incomensurável. E tremendamente hipócrita, porque não havia remorso que o fizesse frear a vontade imensa de burlar as regras do amor correspondido.
Assim, para tentar parecer menos cafajeste, Arnaldo elaborou um código próprio de conduta: transava apenas uma vez com cada mulher, quase sempre desconhecida, e assumia um nome diferente com cada uma, uma nova identidade a cada orgasmo. A cada gozo morria o traidor e nascia um justiceiro, que fugia do local repugnante tão logo sentisse o cheiro a sexo recém praticado. Aquele justiceiro, um dia, se corrompia aos prazeres da carne. Morria no gozo e dava origem a um novo, preocupado em reparar os erros do anterior.
E, para expulsar de vez o gosto do pecado e expiar os maus passos de seu antecessor, o justiceiro sempre cuspia nas mulheres entregues. Isso mesmo. Claudinhas, Joanas, Marinas, Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas cuspidas, recusadas, repugnadas. Algumas se ofendiam e resolviam tirar satisfações. Outras gostavam e pediam mais. Todas ficavam a ver navios, sempre.
Um dia, Simone conheceu João. O mesmo roteiro idiota de todo homem: piscadinha de olho, olhada fixa e esboço de um sorriso, uma desculpa pra se aproximar e pronto, já queria arrastar a moça pra um motelzinho qualquer e se satisfazer. Ela resistiu, mas depois deu o braço a torcer. Esse era até gostosinho. Impôs, contudo, uma condição:
– Vou no meu carro.
E foram. O rapaz, mais previsível do que nunca, acariciou os cabelos dela antes de começar a apertá-la como se ela fosse um pacote de bolas de massagem. Em dez minutos já haviam terminado. Ele soltou um gemido, meteu com mais força, e jogou todo o peso em cima dela, como se ela fosse um pedaço inanimado de qualquer coisa.
Simone ficou com nojo. Cuspiu na cara do precoce soberbo e foi embora. Sem dizer nada, nem deixar telefone.
E desde então Arnaldo vai todas as tardes ao banco, na esperança de reencontrar Luíza. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Minuto

Te amo sem saber porquê, quando ou onde. E, por buscar sabê-lo, me perco em recordações. Tudo fora tão belo, tão rápido, tão indescritivelmente veloz e fascinante que, a cada lembrança que recupero, uma sensação de descontentamento feliz me domina, porque me diz que de nada me adianta a busca. Te amo a cada dia, a cada olhar, a cada abraço sorridente, a cada afago silencioso. Te amo porque meu espírito necessita do teu para manter-se; porque meu corpo perde sua substancialidade quando encontra o teu; porque nenhuma língua que aprenda pode descrever o tamanho deste amor. Te amo pela chuva que cai, pelo sol que aquece, pelas estrelas que representam, em sua totalidade, uma milésima parte de todo este afeto. Te amo porque te amo, e porque não há nada nesse mundo capaz de diminuir este amor. Te amo porque existo, e porque foi a partir de ti que esta existência passou a valer realmente a pena.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Desconerreflexões

Não há língua no mundo dos homens com vocábulos interessantes e belos o suficiente para descrever-te. Então fico assim, preso a palavras repetidas e aparentemente sem algum sentido. As frase podem ser as mesmas; os sentidos não. Os aspectos formais talvez se mantenham, os substantivos e adjetivos talvez se repitam, as paráfrases e elipses e metáforas talvez tornem-se monótonas, mas o sentimento... Este só segue uma figura linguística: a gradação. A segue porque não tem a quem seguir. Não pode ser comparação, posto que é incomparável. Não pode ser metonímia, já que não há parte existente ou imaginada capaz de representar o todo que te idolatra. Não pode ser hipérbole, porque não há risco de excesso entre nós no que tange ao coração. A aparência, sim, esta talvez seja hiperbólica tal qual os gestos que executo embriagado por teu cheiro.
Por isso tudo é gradação. Porque, a cada figura que se mostra insuficiente e falha na representação, meus sentimentos se potencializam na 10²³. Matemático? Tampouco, visto que essa potencialização do que sinto mostra-se ora suave, ora fatal, e sempre intensa. Não há exatidão ou previsibilidade. Há somente o prazer de manter-me cativo em liberdade, e o desejo irracional de manter-me nesta livre prisão por toda a Eternidade.
Tento escrever palavras bonitas, dotadas de beleza semântica e formal, mas todos os verbetes me fogem quando tua imagem se me apresenta. És luz, vertigem, agradável pecado. És vento, és tornado. És brisa que beija meu rosto. Furacão que me toma as palavras. E eu? Eu sou vítima, presa-predador de teu indescritível encanto. Já não sei quem sou, ou o que espero do futuro. Sei apenas quem fui e quem me tornei. E te sou eternamente grato por isto.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Rumo II



Desde que havia constituído sua reta, a corça fora ao Limbo e lá encontrara um diário... escrito por quem??? Sim, por ela, pela belíssima e distante deusa Ártemis! Acreditem, os deuses também tem lamúrias e sentimentos e também desabafam com as folhas de papel. Nas folhas rabiscadas por Ártemis - provavelmente resgatadas por Perséfone, o que justificaria sua presença no Limbo - , dizia a divindade que já cansara de tanto perseguir a corça. Já havia matado a Órion por ela e, agora que Tífon a encantara, voltava a corça a atormentá-la com sua falácia e ar de pobre vítima indefesa.
A corça refletiu, refletiu... e percebeu que não havia feito nada voluntário para que ela matasse o pobre Órion, e que, por pensar que a sua presença havia "ajudado" Ártemis a tomar tal atitude, tinha resolvido afastar-se de vez.
Já sabia que ela andava ao lado de Tífon e, mesmo com todo o mal que isso pudesse representar, havia a corça desaparecido das vistas de Ártemis. Andara pelos bosques à procura de algumas ninfas que a adotassem, e se satisfizera com a instável adoção de Eco, que ainda repetia de sua caverna as palavras de Narciso. A corça havia visto que jamais teria uma adoção completa, porque nem ela mesma se permitia tal.
Contrariando as Parcas, disse Ártemis que tudo é feito de escolhas. "Pois bem, que seja", pensou a corça. Tinha escolhido não intrometer-se no caso de Tífon (o qual Éris fazia questão de comunicar à corça com grotescas maçãs verde-musgo), e Ártemis fizera questão de exibir sua afetuosidade para com o monstro, vingando as feridas um dia causadas pela corça.

Este é o mal que habita o coração de ambas: as feridas abertas que não cicatrizam, porque quando estão a ponto de fazê-lo, o retorno da corça (ou da deusa) faz questão de escaramuçar as cascas e pisar naquilo de mais profundo que há nas duas... as doces lembranças encantadas por Morfeu.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Hoje caminhei pelo vale das Hortênsias. E cheguei a ver-te no rosto de outra ninfa. E isso foi tão doloroso... Ela usava os mesmos trajes, tinha o mesmo caminhar e o mesmo olhar enigmático. Eu poderia ter me apaixonado por ela, pensei, se ela não fosse tão parecida contigo e não estivesse num lugar tão rememorável.
Abandonei-a. Sozinho, em lentos passos, fugi daquele lugar: fui às lembranças. E eu que pensava que elas estavam se apagando... Jurei que, depois de a ter encontrado com Pã, me afastaria (afinal os vales são domínio dele, e eu nada tenho a fazer se sou um plebeu sem reinos, vestes ou veículos reais).
De repente me vi nas nossas águas. Ou melhor, nas minhas águas. Naquelas águas que tanto contemplamos e às quais recorro toda vez que necessito compartilhar com elas as lágrimas humanas que tenho guardadas. Sim, eu sou humano. Sofro, erro, choro, lamento, tenho recordações e sinto dores. Mas não me subestime por isso.
Também senti o vento. O ruidoso e furioso vento que assolava o meu caminho. O vento que poderia ter sido um beijo teu ou até mesmo um tapa de ódio e que, só por representar um contato, já trariam o natural sorriso das nossas cômicas e sempre inadequadas atrapalhações.
Agora ouço música. Essa não esteve presente em nossa história. Acho que nunca a ouvimos em ocasião nenhuma, jamais comentamos algo sobre ela ou vimos um filme que a contivesse em sua trilha sonora. Mas (não sei porque diabos!) ela me traz também uma nostalgia tristonha.
Todos os signos estão contra mim hoje. Todas as hortênsias estavam, assim como as águas não vistas e o vento sentido! Como se não bastasse... agora ouço outra música. E essa faz questão de intensificar as sensações da outra, em letra e melodia.

domingo, 28 de junho de 2009

Rumo




De todas as coisas que já me revoltaram, a maior delas até hoje foi a tríade ascosa que formaram Ártemis, Éris e Tífon. Aparentemente armada com as flechas de Eros, Ártemis mirava-me com olhares esquivos, como se esperasse a primeira distração da corça para acertá-la. A corça, confusa com o percebido-sorrateiro-futuro-bote, deliciou-se com a possibilidade do despertar para o Olimpo novamente. Ao seu lado, uma bela náiade lhe solicitava apoio e colaboração. Éris, então, como não poderia deixar de ser, enegreceu o ambiente com seu ar serpe. As douradas maçãs das Hespérides perderam o brilho, e a flauta de Pã perdeu seu valor.
As coisas só passaram a ficar piores quando deparei-me com Tífon e seus caninos a cercarem a pobre deusa. Quis alertá-la, mas já era tarde: aquela que tanto espreitara a corça fora pega inesperadamente pelo monstro das caninos gigantescos. Éris, que conseguia mirar a mim, à corça, à deusa e ao monstro simultaneamente (não sei se por obra de Argos, não sei se por sua visão periférica), deliciava-se com a cena, e fazia o possível - e o impossível - para ferir aquela corça imobilizada pela situação presenciada - nunca havia visto tantas possibilidades de concretização dos males.
Dos componentes da tríade, o que me deixou menos receoso (em mínima parte) foi o monstro que, apesar da aparência, tinha olhos que me pareciam um tanto quanto bondosos. Também foi, coincidentemente, o que menos aterrorizou a corça, que não se importou de interagir com ele.
Rumaram os quatro ao Olimpo, para participar do cortejo de Afrodite, que vinha de outros montes. Lá encontraram outros deuses e deusas, e a corça, sentindo-se acuada, pretendia fugir. Não poderia fazê-lo: já que ela fora em parte culpada pelo rumo que tomara - ninguém lhe ordenou que andasse por aqueles campos - , restava-lhe apenas a solidão costumeira em meio à multidão.
Pouco a pouco, formaram-se triângulos, quadrados, hexágonos... e a corça, perdida, permanecia numa reta que tinha duas extremidades bem definidas: C e A. [...]

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Relações sintáticas


Não sei porque insisto em ver estas imagens que tanto me doem. Um tanto masoquista, visito tuas fotos mais uma vez e vejo nelas a ausência de um "eu" que um dia fez parte de um "nós" e era feliz. O sujeito que constituía tua frase teve seus predicativos substituídos, e os antigos predicativos agora pertencem a outro sintagma nominal. "Triste" passou a ser o modificador do núcleo isolado que dantes formava par num sujeito composto que era uno.
Como todo bom sintagma - deslocável e substituível - tive minhas propriedades fundamentais postas em prática, e agora sou apenas a possibilidade de construção. O que enche meu verbo de adjuntos, intensificando-o, é o fato de que sou eu a conjunção causal desta oração e deste tempo verbal que tende ao pretérito perfeito, mas que ainda não se consolidou como tal.
Quatro porquês se colocam em meu texto, referindo-se a diferentes pronomes (todos os pessoais singulares e um único do número plural). O pronome plural parece estar-se apagando, e o primeiro dos singulares também, em relação ao segundo; fortalecem-se apenas o segundo e o terceiro, que em instantes tornar-se-á o primeiro, quando este houver sido borrado de vez.
Resta-me apenas aguardar por um modificador, ou por um advérbio que torne perene a significação do verbo mais importante que tenho a oferecer em forma de substantivo. Superlativos hiperbólicos me vêm à mente, e lembro que, apesar da aparente minúcia insignificante proveniente da tua forma, tinhas para mim a melhor substância, e o valor que te devotei não encontrei mais em nenhuma enciclopédia linguística.
Não sei se isso tem alguma função apelativa por detrás da poética, mas sei que há uma função não identificada por Jakobson: a transbordante, caracterizada pela emergência de palavras que se dão quando o enunciador não consegue mais suportar a realidade discursiva com a qual se defronta. Em algum momento esgotam os adjetivos, os adjuntos, os verbos, os complementos. Resta apenas um núcleo que, sozinho, só consegue interagir com verbos sôfregos e intransitivos.
Resta também um substantivo abstrato que impossibilita a explicitação do simples - manifesto de forma complexa - nessas linhas. Mas Clio conseguirá compreendê-lo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Madrugada

- Eu acho melhor nós pararmos por aqui.
Estas foram as últimas palavras de Guilherme. As últimas que ele proferiu a Lívia com os olhos cheios d'água, mas as primeiras que ele lembrou naquela noite entediante de dezembro. Por que terminara com algo que havia levado tanto tempo para realizar? Por que lutara quatro anos bissextos para conquistar um tesouro desperdiçado em quatro bimestres? Nem mesmo Guilherme saberia responder. Em verdade, talvez o fato se tenha dado justamente por este motivo: faltava ao rapaz conhecer a si mesmo.
Tinha algumas aspirações, algumas donzelas idealizadas, mas era como uma grandiosa plantação de eucaliptos - a cada dia o moço crescia mais e ascendia rapidamente para o mundo profissional para o qual se preparava, mas em suas bases faltava-lhe algo. Faltava-lhe o mutualismo feliz com quem quer que fosse.
Tão invejado (tão bem-sucedido!), Guilherme era apenas uma pequena larva a revolver-se em meio a grandiosas e verdejantes folhagens. Muitos o admiravam, mas poucos, muito poucos suspeitaram, um dia, de suas angústias e inquietações.
Reclamava da aparente artificialidade de Lívia, da frieza da mulher em seus afetos. Uma mulher por ele tão idealizada não correspondera aos seus anseios. Mulher alguma corresponderia. Seu erro era anterior à conquista. Antes mesmo de cogitar a possibilidade de amar uma menina, a colocava acima de seu alcance. Consagrava a mulher ao Olimpo, numa posição que o impossibilitava tê-la desde aquele momento. Dava a Zeus o que não lhe pertencia!
Parece que, a Guilherme, perceber a Lívia e a qualquer outra moça como humana está além de suas possibilidades. Malditas leituras de Álvares! Malditos saberes de Dante! Se houvesse, alguma vez na vida, lido Goethe, talvez percebesse a realidade doa fatos (ou se corrompesse a ponto de descrer no amor). Não que ainda cresse no mesmo, solitário que é o pobre humano.
Talvez fosse melhor entregar-se a Iku, a Morfeu, a Tanatos. Que diferença enorme faria a nomenclatura - de que lhe adiantara todo o conhecimento. Sabia encontrar um livro na estante como ninguém, mas não conseguia traçar as próprias coordenadas...
Tristes duas horas da alvorada. Latem os cães. A música deprimente toca no aparelho de som. É a triste ilusão de não estar só. Que estranho, Cecília, os cisnes cantaram mais cedo esta noite.



*Texto perdido nas folhas rabiscadas de um caderno.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Inercia

Si me quieres, hay que ser por completo. Esas fueron las últimas palabras de Laura antes que la puerta hiciera su fuerte sonido. LLena de lágrimas, su última acción fue mirar, una vez más - y había dicho a si misma que no lo haría de nuevo - a la ventana del dormitorio de Gustavo. Le restaba todavía la esperanza de que él le buscara y le pidiera que volviera a casa.
Gustavo, por otro lado, se quedó inmóvil en su cama. Lloraba también, pero no podía hacer otra cosa. Había dado un fín a su relación porque sentía que permanecer al lado de Laura haría con que el gran amor que tenía por ella se terminara por completo. No estaba seguro de sus sentimientos y no quería causarle a Laura un sufrimiento mayor.
Ella le dije que todavía podrían salvar al matrimonio. Pero él estaba muy desorientado para seguir con algo que le parecía arruinado. ¿Si la quería? Ni mismo Gustavo sabería decirlo. Por eso se quedaba paralisado. Mejor perderla que quedarse con ella y hacerla sufrir. Tal ves un día volvieran, si Laura lo quisiera todavía. Tal ves no, y él percibiera que había perdido el gran amor de su vida.
Ahora, necesitaba quedarse solo. Antes de cualquier cosa debería dar atención a sus pensamientos. Salir del laberinto en que se había metido. Sin luz, sin amor, sin la presencia astral de cualquier entidad. En la solitud de su habitación, Gustavo reflexionaba acerca de su maldita - y constante - inercia.