segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O sanduíche


E tudo o que tu sentes é fome. Uma dor imensa, como se de repente alguém tivesse enfiado uma faca na boca do estômago e gotejado ínfimas porções de ácido, tão ínfimas quanto ininterruptas, capazes de causar as dores mais agudas que um ser já imaginou sentir.
E é com essa mesma dor que tu entras no trem. De todas as dores que tiveste até aqui, a dor da fome é a que mais te dói. Não te dói tanto a ausência da namorada, nem os almoços com a família e as risadas fraternas. Porque, quando tu sentes fome, toda lembrança com os entes queridos se vai, deixando apenas um minúsculo fragmento. Uma  imagem congelada, que te faz encher a boca de líquido sedento, a recordar o nunca mais tido feijão com arroz, a torta de chocolate, a lasanha de panqueca, o sorvete de baunilha com petit gâteau que aquele restaurante barato da esquina finge que faz, pra chamar cliente. Quando a fome te ataca, olhas para o lado e enxergas lanche até nos braços da poltrona.
E aí então tu te sentas e, como se Murphy estivesse ao teu lado como nunca, tu vês a um asiático – porque esses caras têm sempre tudo à mão?! – tirando da mochila um belíssimo panini, sanduíche suculento com recheio saindo pelas bordas das duas metades de uma baguette. Um não, DOIS sanduíches, é o que ele tira.
E aí tu percebes o quanto o teu espírito pode ser evoluído. Porque suportar o cheiro delicioso daquele sanduíche quentinho quando tu sentes uma fome pré-histórica; ver o asiático com seus fones de ouvido e seu ipod de última geração, mordendo com vontade aquele pedaço incrível de farinha de trigo processada e assada com ovos e óleo; notar que ele percebeu que você está olhando com a maior inveja do mundo praqueles dentes que trituram com vontade cada mordida e, após isso tudo, não fazer nada, é coisa de gente muito, mas MUITO, espiritualizada.
E te faltam ainda duas horas de viagem. O desgraçado – e é desgraçado porque parece, sem o saber, estar se regozijando com a tua dor – fecha os olhos que a natureza já não deixou muito abertos e escuta, tranquilo e com a fome saciada, suas canções Techno. Ao menos é isso o que a gente imagina, quando tudo o que enxerga é um obstáculo para o mais importante: a metade de sanduíche que ele não comeu.
E aí tu pensas em tudo: “acordo o cara e pergunto se tu ne veux plus?”, “dou um abraço nele e peço gentilmente o pedaço que ficou”, “me humilho e peço de joelhos que me conceda a dádiva de comer uma migalha que seja daquele divino pedaço de pão”, “pergunto se ele não quer me vender o resto”, “passo rápido e, aproveitando-me do fato de que ele está de olhos fechados, roubo o pão e finjo que nada está acontecendo”.
Mas a maldita moral e educação que aquele ser cerceador chamado “mãe” te deu, como sempre, destrói toda a possibilidade de sucesso em uma operação como essa, já que tu não te permites nem sequer operacionalizá-la. E então tu pensas em fechar os olhos também e em dormir, porque o sono te impede de sentir fome. Mas se passa justamente o contrário: é a fome que não te deixa dormir.
E tu passas mais uma hora e meia olhando pr’aquele pedaço de resto alheio, com um desejo que nem um cão poderia representar. Até os pedaços verdes de alface que saem pelas laterais te parecem saborosos. E, ainda que sejas alérgico a tomate, todas as minúsculas partes vermelhas que enxergas se apresentam a ti como convite tentador.
O tempo da tortura termina. O trem chega ao lugar de destino, e então tu te despedes daquela bela visão que te atordoou durante horas que pareceram milênios. O asiático dorminhoco vai à frente, portando ostentoso o troféu da tua fome. E aí tu te despedes definitivamente da tua miragem. O problema é que ele também se despede. Ele, o asiático. Ele, o filho da puta que te fez sentir fome durante duas horas, que te fez olhar durante duas horas para uma metade de sanduíche que parecia a descoberta de um oásis no deserto, também se despede do seu resto de sanduíche. A lixeira é o destino final da tua fome, do teu objeto de desejo.

E, vendo isso, nada mais te resta a não ser crer que, merda, teria valido a pena roubar o sanduíche.

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