segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Quixote



Oh, minha mais doce donzela
minha amada Dulcinea
Contigo vivo a sonhar!

Não sei se é falta dela
mas sei que eu, por não vê-la
olho pra Lua a chorar

Que falta me fazes, donzela
e teu doce caminhar
Para mim és como estrela,
que parte e encerra o luar

Se meu coração trovador
por ti parar de cantar
Saiba, estarei morto, amor
Porque tu és o meu ar

E aos espanhóis de plantão
Que a ela ousarem cortejo
Les digo, navegantes, de antemão
Vejais a ela como eu vejo

Pois se a tratares mal
Eu, como um sertanejo
Os levarei ao portal
Daqueles sem luz nem desejo...

Eu vos adoro tanto, e com tal fervor
que mesmo em face do maior temor
luto com todas as forças que tenho

e se a vejo feliz aí onde estás
ainda que triste por não ver-te mais
em tua felicidade não intervenho

Mas, nos enunciados em que me perco
e me delato, e sofro, e me entrego

Desisto de tentar ser o dono
pois que de ti são todas as palavras
não nego.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Sufoco


Lendo Neruda, percebi que também posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Versos que cortam o vento como navalhas.
Versos que sufocam o ar como a terra ao soterrado.

Versos que choram pelo simples fato de versificarem.
Versos que desaguam suas dores mais profundas num ato catártico mal efetuado.

É isso: parece que atualmente devemos fazer tudo calculadamente.
Transações, saques, saldos...

De que me importam as relações, se tu me sacaste o meu bem mais precioso?
Levaste contigo o que me restava.

Versos esta noite não diriam nada.
Porque nada é o que sou agora.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Dulcinéa




Hoje senti uma dor profunda
Uma saudade que ninguém mais sente
Corro pelas casas, vales e ruas...
E não te encontro, mas estás presente.

Lembro então do dia em que partiste.
Quando deixaste Quixote doente
Chego a pensar que tu de mim fugiste
Mas foste em busca dos sonhos da gente.

Do outro lado do Oceano vives
E eu sinto tanto a falta de um presente(!):

Tu, aí, perdida em teus moinhos
Eu, aqui, te espero eternamente.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Casmurro


Quando te queria doce rio, fostes vento árido;

Quando te queria lago, fostes tempestade indomável;

Quando quis-te presa, fostes búfalo selvagem.


Quando, enfim, resolvi ser carrasco de mim mesmo

E querer-te vento, tempestade, búfalo em corrida...

Fostes água límpida, cristalina, previsível caracol imóvel.

E eu, eterno descontente, não te reconheci em todos estes signos!


Busquei vento, e me vi sem ar;

Busquei tempestade, e tive calmaria;

Busquei ser presa, e me vi obrigado a ser predador.


Foi então que, penalizados, transformaram-me os deuses em fonte.

Sou cópia mal feita de mim mesmo.

Cachoeira destruída pela falha estrutura.


Meu problema, do qual eu fugia,

Foi sempre querer-te como te não tinha.