quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Casmurro


Quando te queria doce rio, fostes vento árido;

Quando te queria lago, fostes tempestade indomável;

Quando quis-te presa, fostes búfalo selvagem.


Quando, enfim, resolvi ser carrasco de mim mesmo

E querer-te vento, tempestade, búfalo em corrida...

Fostes água límpida, cristalina, previsível caracol imóvel.

E eu, eterno descontente, não te reconheci em todos estes signos!


Busquei vento, e me vi sem ar;

Busquei tempestade, e tive calmaria;

Busquei ser presa, e me vi obrigado a ser predador.


Foi então que, penalizados, transformaram-me os deuses em fonte.

Sou cópia mal feita de mim mesmo.

Cachoeira destruída pela falha estrutura.


Meu problema, do qual eu fugia,

Foi sempre querer-te como te não tinha.




3 comentários:

  1. Isso que tu tens é um dom! Um dom lindo! Um olhar se extrema sensibilidade pra vida e pro mundo... Expande essa beleza, gurizinho... Teu texto é matéria-prima! Lindo! Simplesmente, lindo!

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  2. Um belo tratado sobre thanatos e a antropofagia.
    Dom? Só se for Casmurro...

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  3. Nossa que lindo o poema!!!
    bem deprimente.. capaz..
    eu gosto de texto assim que retrata a sensibilidade..
    Foi um prazer muito grande ser um poema tão lindo..

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