No túnel do tempo
Nas ruínas do tempo
Tudo é circular:
A ferida aberta
Cicatriza
E abre
O coração aquecido
Gela
E quebra
As histórias seguem sendo as mesmas
As pessoas seguem sendo as mesmas
As almas são as mesmas e tudo o que se modifica são máscaras efêmeras
Édipo não pode fugir da ruína
Teseu não pode deixar de fugir
Egeu já estava morto desde antes do precipício
E o que nos resta, quando Penélope já não pode tecer?
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
O sanduíche
E tudo o que tu sentes é fome.
Uma dor imensa, como se de repente alguém tivesse enfiado uma faca na boca do
estômago e gotejado ínfimas porções de ácido, tão ínfimas quanto ininterruptas,
capazes de causar as dores mais agudas que um ser já imaginou sentir.
E é com essa mesma dor que tu
entras no trem. De todas as dores que tiveste até aqui, a dor da fome é a que
mais te dói. Não te dói tanto a ausência da namorada, nem os almoços com a
família e as risadas fraternas. Porque, quando tu sentes fome, toda lembrança
com os entes queridos se vai, deixando apenas um minúsculo fragmento. Uma imagem congelada, que te faz encher a boca de
líquido sedento, a recordar o nunca mais tido feijão com arroz, a torta de
chocolate, a lasanha de panqueca, o sorvete de baunilha com petit gâteau que aquele restaurante
barato da esquina finge que faz, pra chamar cliente. Quando a fome te ataca,
olhas para o lado e enxergas lanche até nos braços da poltrona.
E aí então tu te sentas e, como
se Murphy estivesse ao teu lado como nunca, tu vês a um asiático –
porque esses caras têm sempre tudo à mão?! – tirando da mochila um belíssimo panini, sanduíche suculento com recheio
saindo pelas bordas das duas metades de uma baguette.
Um não, DOIS sanduíches, é o que ele tira.
E aí tu percebes o quanto o teu
espírito pode ser evoluído. Porque suportar o cheiro delicioso daquele
sanduíche quentinho quando tu sentes uma fome pré-histórica; ver o asiático com
seus fones de ouvido e seu ipod de
última geração, mordendo com vontade aquele pedaço incrível de farinha de trigo
processada e assada com ovos e óleo; notar que ele percebeu que você está
olhando com a maior inveja do mundo praqueles dentes que trituram com vontade
cada mordida e, após isso tudo, não fazer nada, é coisa de gente muito, mas
MUITO, espiritualizada.
E te faltam ainda duas horas de
viagem. O desgraçado – e é desgraçado porque parece, sem o saber,
estar se regozijando com a tua dor – fecha os olhos que a natureza já não
deixou muito abertos e escuta, tranquilo e com a fome saciada, suas canções Techno. Ao menos é isso o que a gente
imagina, quando tudo o que enxerga é um obstáculo para o mais importante: a
metade de sanduíche que ele não comeu.
E aí tu pensas em tudo: “acordo o
cara e pergunto se tu ne veux plus?”,
“dou um abraço nele e peço gentilmente o pedaço que ficou”, “me humilho e peço
de joelhos que me conceda a dádiva de comer uma migalha que seja daquele divino
pedaço de pão”, “pergunto se ele não quer me vender o resto”, “passo rápido e,
aproveitando-me do fato de que ele está de olhos fechados, roubo o pão e finjo
que nada está acontecendo”.
Mas a maldita moral e educação
que aquele ser cerceador chamado “mãe” te deu, como sempre, destrói toda a
possibilidade de sucesso em uma operação como essa, já que tu não te permites
nem sequer operacionalizá-la. E então tu pensas em fechar os olhos também e em
dormir, porque o sono te impede de sentir fome. Mas se passa justamente o
contrário: é a fome que não te deixa dormir.
E tu passas mais uma hora e meia
olhando pr’aquele pedaço de resto alheio, com um desejo que nem um cão poderia
representar. Até os pedaços verdes de alface que saem pelas laterais te parecem
saborosos. E, ainda que sejas alérgico a tomate, todas as minúsculas partes
vermelhas que enxergas se apresentam a ti como convite tentador.
O tempo da tortura termina. O
trem chega ao lugar de destino, e então tu te despedes daquela bela visão que
te atordoou durante horas que pareceram milênios. O asiático dorminhoco vai à
frente, portando ostentoso o troféu da tua fome. E aí tu te despedes
definitivamente da tua miragem. O problema é que ele também se despede. Ele, o
asiático. Ele, o filho da puta que te fez sentir fome durante duas horas, que
te fez olhar durante duas horas para uma metade de sanduíche que parecia a
descoberta de um oásis no deserto, também se despede do seu resto de sanduíche.
A lixeira é o destino final da tua fome, do teu objeto de desejo.
E, vendo isso, nada mais te resta a não ser crer que, merda, teria valido a pena roubar o sanduíche.
E, vendo isso, nada mais te resta a não ser crer que, merda, teria valido a pena roubar o sanduíche.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Le voyageur saignant
Mon coeur
est ouvert
par une blessure
qui saigne
qui me fait mal
et que j'aime
C'est toi
La douleur
cette colère
si confuse
et saignante
C'est toi
La couleur
le bonheur
qui me donne
des espoirs
C'est toi
La blessure
infinite
de mon coeur
C'est toi
Dernier port
Qui'il espère
Ce saignant
Voyageur.
est ouvert
par une blessure
qui saigne
qui me fait mal
et que j'aime
C'est toi
La douleur
cette colère
si confuse
et saignante
C'est toi
La couleur
le bonheur
qui me donne
des espoirs
C'est toi
La blessure
infinite
de mon coeur
C'est toi
Dernier port
Qui'il espère
Ce saignant
Voyageur.
En route
Roule la vie
Roule la ville
Et mon coeur est là
Perdu et libre
Sur la machine
Qui roule
Qui coule
Comme une rivière
Qui passe
Parmi mes doigts.
Roule la ville
Et mon coeur est là
Perdu et libre
Sur la machine
Qui roule
Qui coule
Comme une rivière
Qui passe
Parmi mes doigts.
domingo, 20 de outubro de 2013
domingo, 15 de setembro de 2013
De cães e vida
O cão ladra
O cão ladra
O cão ladra e
Em seu ladrar
Há um grito
De socorro
E no seu grito
Especular
Eu me encontro
A mim
Que grito
Há tanto
Em silêncio
Cão que ladra
Não morde
E eu
Sem ladrar
Já comi meus dedos
Tão fartos e
Cansados
De apontar
A um futuro
Há um futuro
Ah, um futuro
Que eu não sei
Se existe mesmo
Daquele lado
Ou do lado
De cá
De calma
E paciência
Inesgotáveis
Que essa vida
De cão
Não cessa
De pedir
Mas o cão ladra
E eu nado
No nada
Da minha vida.
O cão ladra
O cão ladra e
Em seu ladrar
Há um grito
De socorro
E no seu grito
Especular
Eu me encontro
A mim
Que grito
Há tanto
Em silêncio
Cão que ladra
Não morde
E eu
Sem ladrar
Já comi meus dedos
Tão fartos e
Cansados
De apontar
A um futuro
Há um futuro
Ah, um futuro
Que eu não sei
Se existe mesmo
Daquele lado
Ou do lado
De cá
De calma
E paciência
Inesgotáveis
Que essa vida
De cão
Não cessa
De pedir
Mas o cão ladra
E eu nado
No nada
Da minha vida.
domingo, 8 de setembro de 2013
Um amor sem medidas
Marina amava
Pedro incondicionalmente. À hora do café, preparava com cuidado cada pormenor:
a geleia de amoras de que ele tanto gostava, as fatias de pão recém-torrado, o
café recém-passado-e-adoçado pronto para tomar. A goiabada milimetricamente
cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares, tudo pronto, tudo à espera que as geleias
unissem o que as mãos de destino de Marina já haviam disposto. Tudo para e por
Pedro.
Pedro era a
casa da amada. A ele ela recorria sempre que as coisas não davam certo, na
enfermaria. Eram os seus braços de afago o que confortava a dor de ter de
suportar o olhar insuportável de reprovação de Edite a cada nova tarefa. Eram
seus olhos de infinito a bússola que assegurava a Marina o norte próximo de um
futuro inabalável. Era sua voz de calmaria o que impedia que as tempestades em
copo d’água de Marina se alastrassem pela casa, deixando cinza até o mais
límpido dos sóis. Pedro era porto seguro, cais, razão.
Mas Pedro não
quis saber de geleia, goiabada, tampouco de café adoçado. Queria manteiga,
queijo e café instantâneo puro, sem açúcar. Cansara daquela baboseira de lar e
de pares que só ela, na cabeça dela, no mundo mágico dela, havia inventado. A
geleia de amoras há muito perdera o sabor, perdera-o com o acento. A goiabada,
sempre repetidamente igual, parecia já viscosa pela ação do tempo. Pedro não
quis tomar o café, e foi trabalhar com o estômago farto e pesado de tantas
coisas não ditas e entaladas na goela.
Marina chorou
copiosamente. Há muito desconfiava que
Pedro tivesse outra mulher. “Isso foi trabalho de amarração, guria”, havia dito
uma amiga. Pedro perdera as referências: estava frio, seco e distante. Vinha
diminuindo as porções de geleia há muito, e naquele dia sequer empunhara o
talher. Estava farto. Teria se decidido e resolvido trocar de casa, de braços,
de esposa? Tantos anos de dedicação pareciam desmoronar como manteiga derretida
em pão quente.
Ligou para
Paulo. Se Pedro tivesse alguém, Paulo saberia. Se não tivesse, ao menos
forneceria o abraço amigo. Paulo era forte, do tipo centrado, que não se
deixava corroer pelas emoções. Se houvesse lógica na hipotética traição de
Pedro, ele o diria. Se não, convenceria Marina, por A mais B, de fantasia
extrema, e ela até se sentiria culpada. “Vem pra cá e nós conversamos com
calma”, disse ele.
Foi, então.
Ele a esperava com chá de hibiscos e um Floresta Negra banhado em cerejas.
Paulo tinha desses requintes. Conversaram a noite inteira e, pouco a pouco,
Marina deixou-se levar pelo raciocínio áspero de Paulo, tão oposto à visível
sensibilidade que ele demonstrava à mesa e aos abraços.
Entre um chá e
outro, uma fatia de bolo e outra, acabaram abrindo uma garrafa de vinho e
comendo as cerejas debaixo dos lençóis. Marina viu em Paulo o acender da
lareira em chamas que Pedro há muito havia apagado. Se Pedro era frio como
rocha, Paulo era candente como ferro em brasa. Com Paulo, Marina não sonhava
porque não tinha tempo para dormir. Marina, finalmente, reconhecia em outro o
ardor amoroso que o marido nunca demonstrara.
Naquela noite,
Marina descobriu que amava Paulo incondicionalmente. Pela manhã, à hora do
café, preparou com cuidado cada pormenor: a geleia de amoras de que ele tanto
gostava, as fatias de pão recém-torrado, o café recém-passado-e-adoçado pronto
para tomar. A goiabada milimetricamente cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares,
tudo pronto, tudo à espera que as geleias unissem o que as mãos de destino de
Marina já haviam disposto. Tudo para e por Paulo. Um amor sem medidas.
Paulo
saiu cedo para trabalhar, e disse-lhe, cheio de afeto, que compreenderia que
ambos houvessem se deixado levar pela necessidade de afeto e manteria segredo,
se ela desejasse regressar a casa. Pedro ligou para Marina, pedindo perdão pela
grosseria, reconhecendo seus erros e sentindo-se culpado por não ser-lhe um
amante à altura.
Marina
ficou em dúvida. Sabia que com Paulo seria ardorosamente mais feliz, mas não
tinha certeza da durabilidade do ardor, da felicidade, sequer tinha certeza da
durabilidade de sua própria certeza. Além disso, Pedro esfriara pouco a pouco,
mas nunca lhe dera reais motivos para desistir do amor devotado. E havia,
também, os vizinhos. Que diriam eles, disso tudo? Tanto tempo erigindo casa e
relacionamento, causando inveja aos olhares alheios, desfilando pelas festas e
colunas sociais para ver tudo desmoronar por conta de um desagrado repentino de
geleias de amora, goiabada e café passado? Não, não se deixaria levar por
impulsos impensados. Estava decidida: retornaria aos olhos de infinito de
Pedro.
Nove
horas da manhã a campainha tocou. Pedro abriu a porta e, com ela, um sorriso
iluminou a sala. Depois notou o cesto, à espera de quem sorveria um novo café
da manhã: pão francês quentinho, pronto para derreter a mais dura das manteigas,
queijo no lugar da goiabada, café instantâneo e uma bela fatia de Floresta
Negra com cerejas.
- Você se
comporte, ela já está desconfiando.
E
Paulo, mais uma vez, comeu cerejas debaixo dos lençóis.
"Tinha uma bússola"
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Ceia
terça-feira, 3 de setembro de 2013
YIN E YANG
![]() |
| Imagem retirada do Google, sem referências autorais |
Aí está algo que
sempre me deixou intrigado, na vida: o símbolo do Yin-Yang. Aqueles dois
girinos, um sobre o outro, representantes das energias do universo, com seus
princípios ativo e passivo, masculino e feminino, branco e negro, sempre me incomodaram
de alguma forma.Essa representação do mundo como união de oposições, como
necessidade de complementaridade entre as coisas, me inquietava. Porque o
Yin-Yang explica a imprescindibilidade de um outro, de um elemento contrário
que imponha uma pequena gota de si para desacomodar a nossa porção pacífica de
comodidade. E isso atordoa, atormenta,
deprime.
Nasci sozinho, e
nunca tive uma gota negra que me movesse da comodidade. Aliás, nunca tive
comodidade, sempre fui uma porção líquida de alma que se estendeu pelo mundo em
busca de uma gota capaz de dar-lhe forma e vida. Meus pais, findos desde a
minha cosmogonia, não me deixaram uma lembrança, um amuleto, uma marca que
fosse da sua presença e do seu afeto. Restaram apenas documentos históricos
relatando os acontecimentos, e uma ou outra foto para a qual sempre olho, como
que buscando qualquer identificação que me permitisse reconhecer ali um dos
meus progenitores. E então crio mundos, invento histórias, conto relatos
harmoniosos de família e brinco de ser criança escondida, à espera do momento
em que o pai, sabendo do esconderijo, finja ainda não ter lhe visto e faça uma
cara gostosa de espanto, dando ao pequeno a satisfação de haver enganado um
superior.
Mas volta e meia
mergulho no poço fundo da realidade e me pego só, ínfima gota isolada que é
incapaz de fazer diferença no todo porque lhe é impossível integrá-lo. Nunca
tive mulheres, nem amigos, nem nada que desse qualquer ideia de laço afetivo.
Verdadeiramente sinto que não sou capaz de completar ninguém e que ninguém
nesse mundo será capaz de, um dia, dar-me qualquer ilusão de plenitude.
E hoje, aos 66
anos de idade, pude compreender enfim o porquê disso tudo. Seis, número da
conciliação entre opostos, da harmonia – doce ironia – entre os princípios
masculino e feminino. Yin e Yang. As dores começaram há dois meses, e o que
escondo tem se feito mais aparente a cada dia. Parece que irá romper todas as
minhas barreiras e gerar um novo ser.
Ao receber o
resultado dos exames, estremeci. Senti um misto de dor e regozijo, como se
houvessem pingado ácido em uma ferida aberta e essa dor, de alguma forma,
trouxesse-me a felicidade de fazer-me sentir vivo, de compreender que a vida
tinha sentido e que eu queria, sim, queria vivê-la. Que o problema não estava
em mim, mas que alguma instância divina – sabe-se lá a causa – resolvera dar-me
a completude que eu não encontrara em nada no mundo.
Nasci órfão,
vivi sozinho e nunca tive ninguém. E apenas aos 66 anos de idade descobri que,
devido aos labirintos da genética, meu fenótipo yang guarda um imenso e
disforme yin. A dor que me abre feridas e pinga ácido nelas é uma pequena gota
de yin que cresce e que, lutando contra aquilo em que eu sempre cri, desacomoda
a porção não muito grande de certezas da minha identidade.
Entretanto,
apesar disso, o que deveria ser uma tragédia, tornou-se para mim um confuso
conforto. Nunca tive a gota negra da alteridade porque me basto, meu yang é
casca que guarda a completude. Aos 66 anos de idade, finalmente alcancei o
duplo equilíbrio que a numerologia tanto previra.
E, mais uma vez,
a alteridade passa a atormentar-me. Que dirão? Que farão? Sou um alien, um
monstro, um demônio?
Nesse mundo de
farsas, resolvo então vestir a máscara que por tanto tempo cri essência, e
passo por ti, leitor, como um qualquer. Não serei cobaia de experimentos
mirabolantes nem notícia de tolos jornais alienados e sem conteúdo.A solidão
sempre foi minha única e sóbria companheira, e é dela que hei de valer-me até
que meu sol se ponha. Ser um novo Tirésias trouxe-me sabedoria o suficiente
para saber que as normas desse mundo são vãs demais para compreender a
complexidade desse eu-outro que habita em mim. Dentro e fora, casca e fruto,
yang e yin.
A Ulisses (indriso)
Os gritos dos outros
Teus outros caminhos
E eu teço a esperar
Mas quando tu chegas
Todos os caminhos
Seguindo teus passos
Me levam pro mar
Quem parte sou eu.
Teus outros caminhos
E eu teço a esperar
Mas quando tu chegas
Todos os caminhos
Seguindo teus passos
Me levam pro mar
Quem parte sou eu.
Autoficção
Abraço forte
dádiva certeira
almas unidas
liam sentimentos
beleza rara de um
encontro incerto
rarefazendo todas as certezas
trazendo então tanto encantamento, nestes teus
olhos de redescoberta
dádiva certeira
almas unidas
liam sentimentos
beleza rara de um
encontro incerto
rarefazendo todas as certezas
trazendo então tanto encantamento, nestes teus
olhos de redescoberta
NOVENTO
![]() |
| Imagem retirada do Google, sem indicação de autoria |
Voa vento ventando
chama vermelha
chave
volúpia do meu amor
Vento venta voando
vermelha rosa
vituper.osa
abrindo os caminhos da dor
Vento voa ventando
nove chaves airosas
nove olores de rosas
fogo , a senda, paixão
Venta vento voando
voa vem furacão
o mundo gira de roda
os ventos tiram do chão
Venta voa ventando
vento chave
chorando
os filhos entoam canção
Voa voa ventando
segredo-chave
se abre
em roda, em oração
Voo a voo chegando
gira a rosa vermelha
roda enrubesce faceira
na gira do lampião
Chega voo voando
grita o toque à alma
venta chora acalma
ama e entende a canção
Vento vento ventando
brisa calma oração
canção do fogo dos olhos
em chamas
de Iansã.
domingo, 25 de agosto de 2013
Da poesia
A tora de madeira, na lareira, parece apagada. Brasa sutil se estabelece ao redor. O calor lateja sob a superfície. Então, apanho o cutucador e, com golpes relativamente fortes, rompo a madeira, fendo a casca. Eis a poesia: fogo latejante que, escondido, se abre em palavras.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
(sem título)
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Eu-Outro
Olho-me ao espelho
E te encontro
Face marcada pelo devir
Que posso eu definir
Daquilo que não me pertence?
Mas tu,
Tu me conheces
E sabes cada angústia
Cada vazio
Cada expectativa frustrada
Que me aguarda
Oblíqua
E dissimulada
Como os olhos de Capitu.
E te encontro
Face marcada pelo devir
Que posso eu definir
Daquilo que não me pertence?
Mas tu,
Tu me conheces
E sabes cada angústia
Cada vazio
Cada expectativa frustrada
Que me aguarda
Oblíqua
E dissimulada
Como os olhos de Capitu.
domingo, 4 de agosto de 2013
Do Relógio

O olho
O relógio
A fome
O relógio
A sede
O relógio
O sono
O relógio
O berço
O relógio
O jogo
O relógio
O amor
O relógio
O filho
O relógio
O trabalho
O neto
A vida
O relógio
A beleza
A cor
A alma
O relógio
O fim.
(E o relógio...)
domingo, 28 de julho de 2013
Perdoa o meu jeito torto de te dizer que te amo. Perdoa por brigar, por te fazer todas as injúrias que um mortal possa e por tentar, sempre, mostrar um caminho que eu acho que é melhor porque eu acho que ele é menos doído porque eu acho que tenho que te impedir de sentir dor. Ou talvez eu pense que só eu possa te fazer sentir dor - e o faço tanto! -, a ponto de buscar tua atenção para cada nova venenosa investida argumentativa.
Mas se tu soubesses o quanto eu te admiro e te quero bem, minha pequena, talvez ignorasses o monte de agulhas que lanço da língua e abrisses os braços como anjo da guarda e me afagasses com misericórdia divina. E verias o quanto sou fraco, e como sou frágil e como, independentemente, eu dependo em essência de ti.
E só existo porque tu és o meu outro. E só sou casca porque tu és fruto. E só sou escudo porque és braço que me sustém. E que por trás de todo esse maquiavelismo fraterno estranho há um bem querer incomensurável e sádico, que crê que fazer doer é forma de impedir-te de sentir as dores do mundo.
E que tudo o que eu quero é o teu abraço. O teu riso incontido e as tuas gargalhadas estrondosas. A tua voz de que tanto reclamo e o brilho do olhar que eu tanto venero em segredo.
Queria dizer-te as mais lindas palavras de amor que houvessem entre todas as línguas. Queria mostrar-te as maravilhas do meu mundo fantástico e fictício, mas ele é só um pedaço oco de madeira comida por cupins. E desmorona. E dói. E sofre.
Porque tu és o Atlas do meu universo e porque, sem ti, as memórias da infância são apenas retratos desbotados pelo tempo. Porque contigo somos, ainda que eu finja ser todo. Porque teu riso é parte que me falta, aqui dentro.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Dissertação
terça-feira, 14 de maio de 2013
domingo, 12 de maio de 2013
Mensagem aos Pais - Formatura de Letras (FURG, maio de 2013)
Mães e Pais:
Boa noite a todos. Hoje é um dia
muito especial para todos nós, porque estamos fechando um ciclo. Fechar ciclos
implica começar outros novos, recuperar o passado para, reestruturando-o,
estabelecer um novo futuro. Nós poderíamos, aqui, enumerar todos aqueles
argumentos que toda formatura/todo formando usa pra falar dos seus pais.
Diríamos que só vocês sabem o que é a dor cotidiana de ver uma parte da gente
sofrendo com trabalhos, com provas, com notas, com exames. Diríamos, também,
que só vocês sabem o que é encontrar-nos extremamente estressados, cheios de
coisas por fazer e sem tempo pra sentar frente à TV, num domingo, e ver um
filme. Poderíamos dizer, ainda, o quanto foi difícil para todos vocês ver-nos
em desespero e nada poder fazer. Mas o que esse discurso pretende mostrar é que
as palavras, mesmo pra quem se especializa nelas, são ainda insuficientes pra
demonstrar aquilo que o coração solicita.
Aqui, como porta-voz de cada um
de seus filhos, peço a todos que fechem os olhos e que ouçam estas palavras
como se a voz que as emana partisse de cada um deles, de cada parte de vocês
que, neste momento, encontra-se aqui neste palco, os olhos cheios d’água, o
sorriso incontido, as trêmulas mãos a
segurar o diploma. O DIPLOMA, a prova de que o sonho é real. Mas, como eu
disse, muito desse sonho precisa ser recuperado, porque as molas propulsoras da
nossa felicidade tão demarcada, hoje, pelo calendário, remontam miticamente à
infância, tempo-espaço em que começamos a trilhar os nossos primeiros passos na
caminhada da vida.
Fechemos os olhos. Fecha os
olhos, mãe. Fecha os teus, pai.
Quando fecho os olhos e penso em
ti, mãe, a primeira coisa de que lembro é do teu abraço. Eu não recordo quando
exatamente ele se tornou tão importante, mas eu o sinto, ainda hoje, com a
mesma intensidade. Lembro-me do conforto do teu sorriso e te sinto a me ninar,
já grande, quando chorei pela última vez. E há algo nas nossas fotos que me
fazem sentir algo sempre novo, uma nostalgia imensa de um tempo que a minha memória
não consegue resgatar. Talvez o esquecimento seja mesmo vontade de não lembrar,
para poder voltar a ti e, vendo-te distraída, reencontrar no teu abraço a
essência da minha identidade. Porque, com tanto mundo pela frente, com tanta
gente me exigindo tanta coisa, eu sei que em teu abraço eu encontro refúgio.
Porque tu és minha primeira e eterna morada.
E tu, pai, quando fecho os olhos
e penso em ti, lembro sempre da minha primeira queda. Engraçado, não é? Mas
lembro disso com tanta força que me é impossível dizer aqui outra imagem que
não a de teus braços a me levantarem e de teus lábios, com um sorriso, a me
dizerem que esse foi só o primeiro tombo, que muitos ainda virão e que eu serei
forte o suficiente pra encarar o próximo, e o próximo, e o próximo, até que um
dia, sentindo o gosto da liberdade, eu perca o medo de cair da bicicleta e siga
em frente. Lembro também do teu afago e da segurança que me dá o teu abraço.
Porque, se o abraço da mãe é refúgio, o teu é fortaleza. Contigo eu me sinto
protegido e encorajado porque sei que tu és meu incentivo mesmo quando sentes
que eu vou cair. Porque tu sabes que eu preciso disso para que a vida não faça
de mim aquilo que tanto te esmeraste para que eu não fosse: alguém cheio de
soberba e frágil perante os tropeços do caminho.
E, olhando pra vocês, aqui, hoje,
as lembranças passam por mim como cenas de um filme. E entre sorrisos,
lembranças e lágrimas, eu sinto vontade é de pedir desculpas. De olhar pra
vocês com cara de quem quebrou a louça e pedir perdão como se tivesse feito a
pior coisa do mundo. A gente potencializa tanto as coisas, quando a emoção
predomina... E é por isso que eu aproveito o momento pra pedir, sinceramente,
que vocês me desculpem. Desculpem pela minha teimosia. Desculpem pelas minhas
manias. Desculpem pelas minhas grosserias, porque sei que quando eu começo a
sufocar vocês são, sempre, os primeiros atingidos.
Desculpem pelos meus erros e
obrigado por compreendê-los. Aliás, MUITO OBRIGADO por terem feito de mim o que
sou, por terem suportado os meus dias difíceis, por terem me dado forças pra
continuar quando tudo parecia perdido – e não falo só de graduação, não, falo
de vida. Obrigado, acima de tudo, por terem aberto os braços pra me receber na
chegada, por terem mostrado um sorriso quando a vontade era de chorar, por
terem cuidado o meu sono e os meus sonhos até que eu tivesse autonomia o
suficiente para realizá-los. Obrigado por terem me dado e por hoje me darem
esse abraço que, eu sei, é muito maior do que tudo o que o dia de hoje representa.
Obrigado por me mostrarem que ainda sou humano, quando o mundo me exige e me
esgota. Obrigado por manterem em mim a criança, que há alguns anos atrás, não
sabia esboçar palavra. Obrigado por me mostrarem que hoje, crescido e com um
diploma de graduação em mãos, eu sou ainda aquela criança, que sente medo, que
ri e que chora, às vezes sem compreender o motivo, e que aguarda ansiosamente
pelo fim dessa colação de grau para, livre das formalidades, jogar-se nos
braços, no afago, no amor infinito de vocês. Obrigado por serem meu lar.
Dizer que os amo, hoje, seria
banalizar demais o que vocês são pra mim. E, podem ter certeza, eu sou mais
forte e mais pleno porque sei que vocês estão comigo, da maneira que for, onde
for, como for preciso.
Obrigado por sermos o que somos
juntos.
Boa noite.
* Texto escrito por Giliard Ávila Barbosa e lido por Shelem Piccini Escobar, na colação de grau dos formandos em Letras, dia 03 de maio de 2013, na Universidade Federal do Rio Grande (FURG).
* Texto escrito por Giliard Ávila Barbosa e lido por Shelem Piccini Escobar, na colação de grau dos formandos em Letras, dia 03 de maio de 2013, na Universidade Federal do Rio Grande (FURG).
segunda-feira, 1 de abril de 2013
TDJFRPM 3
É como se eu estivesse alimentando a minha própria morte. Eu sinto ele mover-se dentro de mim como se um monstro me roesse as vísceras. Eu sangro. Eu sangro e choro e dói pensar que ele destruiu todos os meus sonhos. Nunca mais serei a mesma, e devo isso a ele. Ele mudou a minha vida, se é que em algum momento eu tive uma. Se é que eu ainda tenho uma. Se é que agora eu tenho uma. E o que me revolta é não saber-lhe sequer a fisionomia, porque isso talvez redimisse o meu asco à previsão. E se ele for copiado? E se ele for cópia? E se eles forem, um ao outro, o complemento que falta à minha morte?
TDJFRPM 2
Mal tenho conseguido dormir. Essas lições têm me atordoado demais. Não consigo mais fugir nelas. Nem do desprezo dela. Nem do olhar de reprovação. Ela me odeia desde a primeira vez que me viu, é transparente. E, se nem ela, que só tem a mim, me quer, que motivo tenho eu pra permanecer? Nós só temos um ao outro, e ela insiste em renegar a minha presença como se eu fosse uma chaga aberta no pântano da sua existência, esperando o momento certo pra anunciar a tetania de uma dor que não tem remédio.
sábado, 30 de março de 2013
TDJFRPM 1
Vomitei de novo. Minha mãe anda desconfiada.
E confesso que, por mim, teria vomitado de novo. E mais. Muito mais. Teria vomitado para expurgar o asco que me toma cada vez que lembro do gosto, do cheiro, do jocoso vestígio de esgoto que me obrigaram a abrigar. Se ao menos eu tivesse escolhido esse fardo! Mas não. Todos querem - e se sentem no direito de querê-lo - que eu goste, geste e ame a marca da minha dor.
Rosa diz que Deus castiga, e que ele não nos dá uma cruz que a gente não possa carregar. Só pra começar, eu não sou Ele e, se fosse, teria matado aquele infeliz no primeiro pensamento dele, no primeiro contato simulado.
E, se Deus precisa nos dar dores - e quem pôs o próprio filho na cruz pra comprovar sua autoridade não pode me julgar - é porque ele é incapaz de amar. Ou será que sou eu que amo tanto esse germe do sofrimento que desejo matá-lo por um amor confuso - compaixão e zelo?
O filho da dor. É impossível que ele nasça e que eu o ame de um afeto tranquilo. Nem Iracema - nem a romântica literatura! - conseguiu conviver com isso.
E, se Deus pôs o filho - primogênito e único - na cruz, pelo bem de todos, por que não posso eu fazer o mesmo? Não seria a paz de espírito um bem também? Paz de espírito minha e desse inocente que já carrega, na testa, a marca de Caim.
sábado, 16 de março de 2013
De mendigos e Coca-Cola
Um mendigo tosco, sujo e deficiente, senta-se atrás de mim.
E, inquieto, toma seus últimos goles de Coca-Cola
- maldito mundo do capital -
como se jamais fosse reencontrar
tamanho néctar.
Ergue-se e, torto,
verte toscas gotículas
do sacro líquido
por sobre a minha cabeça.
Ao que levanto exaltado,
enquanto ele pede que eu deposite o lixo
em seu devido lugar.
E, nos olhos dos outros
nos gestos dos outros
asco é a palavra latente
como se ele
- caixa de Pandora -
contivesse todos os males do mundo.
E o seu cheiro podre,
seu aspecto podre,
este imenso pedaço podre de nada
o que é?
É a verdade.
Sim, a verdade.
porque, na sua podridão,
ele mantém a pureza
que guarda quem já não tem o que perder.
E eu,
que me visto toscamente melhor,
que cheiro infinitamente melhor,
que sou polido, educado, querido, exemplar...
o que sou?
Um conjunto harmônico de podridões veladas.
Porque com essa roupa,
esse cheiro,
essa educação,
esse sorriso no rosto,
sou apenas o retrato que pintaram do que nunca fui.
Há um descompasse
entre a máscara que me emprestaram
e a fétida, hipócrita, cômoda
carniça
que se esconde sob os meus tecidos.
Parece mentira,
mas toscas gotas de Coca-Cola
hoje
me fizeram pensar.
E me fizeram perceber
que o tosco mendigo sujo deficiente,
em sua casca,
era o meu eu de dentro.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Convocatória
Vem.
A casa tá pronta
A mala tá pronta
E já tem um espaço
Do lado direito
Do guardarroupas
O coração tá cheio
Mas este foi ocupado
Desde antes
De a cabeça te aceitar...
Vem.
A pressa não é tua
A pressa é minha
Que já não suporto
Digerir-te à distância
Deixa-me sorver-te
Absorver-te
Degustar-te
Viver-te
Pela eternidade.
Vem.
E me torna completo.
Porque assim,
Vez ou outra,
Eu sou um nada
Sem ti.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Luto
Vidas
São ceifadas
Consumidas
Pelo fogo
Pelo álcool
Pela espuma
E a ferida
Tão doída
Tão nostálgica
É o que fica
Do sorriso
Já desfeito
Por saudade
E em brumas.
São ceifadas
Consumidas
Pelo fogo
Pelo álcool
Pela espuma
E a ferida
Tão doída
Tão nostálgica
É o que fica
Do sorriso
Já desfeito
Por saudade
E em brumas.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
A Penélope*
Olha, amiga
eu bem desejo
ver-te de novo
e no teu aconchego
encontrar
novamente
a resposta
para as minhas dores.
Mas esse mundo
tão cheio de flores
que um dia tivemos
hoje é nada
apenas espera
e desespero.
Segue, amiga
segue teu rumo
que eu, perdido,
entre Circes
Calipsos
Andrômacas
hei de um dia
encontrar-te
novamente.
Mas o mar é longo
Os caminhos vãos
E tu, há muito
Já não és meu norte.
* Resposta contraditória a um poema de Lilian Ney. Mas quem disse que o homem não é contradição?
eu bem desejo
ver-te de novo
e no teu aconchego
encontrar
novamente
a resposta
para as minhas dores.
Mas esse mundo
tão cheio de flores
que um dia tivemos
hoje é nada
apenas espera
e desespero.
Segue, amiga
segue teu rumo
que eu, perdido,
entre Circes
Calipsos
Andrômacas
hei de um dia
encontrar-te
novamente.
Mas o mar é longo
Os caminhos vãos
E tu, há muito
Já não és meu norte.
* Resposta contraditória a um poema de Lilian Ney. Mas quem disse que o homem não é contradição?
domingo, 13 de janeiro de 2013
Oração a Oxaguian
![]() |
| Oxaguian - Claudia Krindges |
Que os males dos meus inimigos encontrem, em teu escudo, reflexo especular.
Que a tua espada abra os meus caminhos e me auxilie na hora precisa.
Que o meu pensamento se eleve a ti
E que eu consiga encontrar a ferramenta necessária
Para pilar os problemas que me afligirem.
Em ti confio
Contigo guerreio
E juntos vencemos.
Porque eu ando vestido com as armas que Jorge te deu
E carrego comigo tua sagacidade e inteligência.
Que eu tenha tua elegância perante os contratempos
E tua agilidade em encontrar soluções.
Que nós sejamos um
E que possamos sempre dançar
Quando tudo parecer perdido.
E, quando Iku chegar,
Que eu te reencontre
De braços abertos
Após uma longa
E vitoriosa
Batalha.
Blavino III - Metapoético
blavino
é o retorno
à origem plena
é prever porvires
de um imenso ir e vir
em crescentes ascensões
que culminam em verso central
e as palavras s'esmorecem
buscando um universo
que é luz-escuridão
e o recriarão
ao fim feliz
doverso.
é o retorno
à origem plena
é prever porvires
de um imenso ir e vir
em crescentes ascensões
que culminam em verso central
e as palavras s'esmorecem
buscando um universo
que é luz-escuridão
e o recriarão
ao fim feliz
doverso.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Blavino II
feito
o dito
está dito
não interdito
maldito desfecho
que não mais se reverte
viver, sim, é des...tru (ir-se)
em pequenos (mal)feitos
um (a) corda fere
cada palavra
que desfeita
nossangra
[e]dói.
o dito
está dito
não interdito
maldito desfecho
que não mais se reverte
viver, sim, é des...tru (ir-se)
em pequenos (mal)feitos
um (a) corda fere
cada palavra
que desfeita
nossangra
[e]dói.
Blavino I
amar
é crescer
dentro de ti
sentir-te nascer
renascendo-me em ti
fundir-nos, dois-um, a sós
nas (re) vira - voltas | da vida
é que desfazem-se os nós
a perderem-se os laços
dos nossos abraços
na tua partida
sou pedaços
e só.
é crescer
dentro de ti
sentir-te nascer
renascendo-me em ti
fundir-nos, dois-um, a sós
nas (re) vira - voltas | da vida
é que desfazem-se os nós
a perderem-se os laços
dos nossos abraços
na tua partida
sou pedaços
e só.
* O blavino é uma forma poética ideada pelos poetas brasileiros Juliana Ruas Blasina e Volmar Camargo Junior. Este reproduz a imagem de um triângulo ou pirâmide, apresentando uma estrutura estrófica 1-2-3-1-3-2-1. O primeiro verso está formado por uma única palavra e os seguintes vão aumentando progressivamente o seu número de sílabas, até alcançar a estrofe de verso único central, que é a linha poética de maior medida. Na segunda metade do poema, a medida das linhas decresce progressivamente até o último verso, que também está constituído por uma única palavra.
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