segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

(sem título)

No túnel do tempo
Nas ruínas do tempo
Tudo é circular:

A ferida aberta
Cicatriza
E abre

O coração aquecido
Gela
E quebra

As histórias seguem sendo as mesmas
As pessoas seguem sendo as mesmas
As almas são as mesmas e tudo o que se modifica são máscaras efêmeras

Édipo não pode fugir da ruína
Teseu não pode deixar de fugir
Egeu já estava morto desde antes do precipício

E o que nos resta, quando Penélope já não pode tecer?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O sanduíche


E tudo o que tu sentes é fome. Uma dor imensa, como se de repente alguém tivesse enfiado uma faca na boca do estômago e gotejado ínfimas porções de ácido, tão ínfimas quanto ininterruptas, capazes de causar as dores mais agudas que um ser já imaginou sentir.
E é com essa mesma dor que tu entras no trem. De todas as dores que tiveste até aqui, a dor da fome é a que mais te dói. Não te dói tanto a ausência da namorada, nem os almoços com a família e as risadas fraternas. Porque, quando tu sentes fome, toda lembrança com os entes queridos se vai, deixando apenas um minúsculo fragmento. Uma  imagem congelada, que te faz encher a boca de líquido sedento, a recordar o nunca mais tido feijão com arroz, a torta de chocolate, a lasanha de panqueca, o sorvete de baunilha com petit gâteau que aquele restaurante barato da esquina finge que faz, pra chamar cliente. Quando a fome te ataca, olhas para o lado e enxergas lanche até nos braços da poltrona.
E aí então tu te sentas e, como se Murphy estivesse ao teu lado como nunca, tu vês a um asiático – porque esses caras têm sempre tudo à mão?! – tirando da mochila um belíssimo panini, sanduíche suculento com recheio saindo pelas bordas das duas metades de uma baguette. Um não, DOIS sanduíches, é o que ele tira.
E aí tu percebes o quanto o teu espírito pode ser evoluído. Porque suportar o cheiro delicioso daquele sanduíche quentinho quando tu sentes uma fome pré-histórica; ver o asiático com seus fones de ouvido e seu ipod de última geração, mordendo com vontade aquele pedaço incrível de farinha de trigo processada e assada com ovos e óleo; notar que ele percebeu que você está olhando com a maior inveja do mundo praqueles dentes que trituram com vontade cada mordida e, após isso tudo, não fazer nada, é coisa de gente muito, mas MUITO, espiritualizada.
E te faltam ainda duas horas de viagem. O desgraçado – e é desgraçado porque parece, sem o saber, estar se regozijando com a tua dor – fecha os olhos que a natureza já não deixou muito abertos e escuta, tranquilo e com a fome saciada, suas canções Techno. Ao menos é isso o que a gente imagina, quando tudo o que enxerga é um obstáculo para o mais importante: a metade de sanduíche que ele não comeu.
E aí tu pensas em tudo: “acordo o cara e pergunto se tu ne veux plus?”, “dou um abraço nele e peço gentilmente o pedaço que ficou”, “me humilho e peço de joelhos que me conceda a dádiva de comer uma migalha que seja daquele divino pedaço de pão”, “pergunto se ele não quer me vender o resto”, “passo rápido e, aproveitando-me do fato de que ele está de olhos fechados, roubo o pão e finjo que nada está acontecendo”.
Mas a maldita moral e educação que aquele ser cerceador chamado “mãe” te deu, como sempre, destrói toda a possibilidade de sucesso em uma operação como essa, já que tu não te permites nem sequer operacionalizá-la. E então tu pensas em fechar os olhos também e em dormir, porque o sono te impede de sentir fome. Mas se passa justamente o contrário: é a fome que não te deixa dormir.
E tu passas mais uma hora e meia olhando pr’aquele pedaço de resto alheio, com um desejo que nem um cão poderia representar. Até os pedaços verdes de alface que saem pelas laterais te parecem saborosos. E, ainda que sejas alérgico a tomate, todas as minúsculas partes vermelhas que enxergas se apresentam a ti como convite tentador.
O tempo da tortura termina. O trem chega ao lugar de destino, e então tu te despedes daquela bela visão que te atordoou durante horas que pareceram milênios. O asiático dorminhoco vai à frente, portando ostentoso o troféu da tua fome. E aí tu te despedes definitivamente da tua miragem. O problema é que ele também se despede. Ele, o asiático. Ele, o filho da puta que te fez sentir fome durante duas horas, que te fez olhar durante duas horas para uma metade de sanduíche que parecia a descoberta de um oásis no deserto, também se despede do seu resto de sanduíche. A lixeira é o destino final da tua fome, do teu objeto de desejo.

E, vendo isso, nada mais te resta a não ser crer que, merda, teria valido a pena roubar o sanduíche.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Le voyageur saignant

Mon coeur
est ouvert
par une blessure
qui saigne
qui me fait mal
et que j'aime

C'est toi

La douleur
cette colère
si confuse
et saignante

C'est toi

La couleur
le bonheur
qui me donne
des espoirs

C'est toi

La blessure
infinite
de mon coeur

C'est toi

Dernier port
Qui'il espère
Ce saignant
Voyageur.

En route

Roule la vie
Roule la ville
Et mon coeur est là
Perdu et libre
Sur la machine
Qui roule
Qui coule
Comme une rivière
Qui passe
Parmi mes doigts.

domingo, 20 de outubro de 2013

Quase concreto

E X T E R N O
(E X) T E R N O
E T E R N O
E   T E R N O
É  T E R
     T E     N O

CORAÇÃO

domingo, 15 de setembro de 2013

De cães e vida

O cão ladra
O cão ladra
O cão ladra e
Em seu ladrar
Há um grito
De socorro

E no seu grito
Especular
Eu me encontro
A mim
Que grito
Há tanto
Em silêncio

Cão que ladra
Não morde
E eu
Sem ladrar
Já comi meus dedos
Tão fartos e
Cansados
De apontar

A um futuro
Há um futuro
Ah, um futuro
Que eu não sei
Se existe mesmo
Daquele lado
Ou do lado
De cá

De calma
E paciência
Inesgotáveis
Que essa vida
De cão
Não cessa
De pedir

Mas o cão ladra
E eu nado
No nada
Da minha vida.

domingo, 8 de setembro de 2013

Um amor sem medidas


Marina amava Pedro incondicionalmente. À hora do café, preparava com cuidado cada pormenor: a geleia de amoras de que ele tanto gostava, as fatias de pão recém-torrado, o café recém-passado-e-adoçado pronto para tomar. A goiabada milimetricamente cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares, tudo pronto, tudo à espera que as geleias unissem o que as mãos de destino de Marina já haviam disposto. Tudo para e por Pedro.
Pedro era a casa da amada. A ele ela recorria sempre que as coisas não davam certo, na enfermaria. Eram os seus braços de afago o que confortava a dor de ter de suportar o olhar insuportável de reprovação de Edite a cada nova tarefa. Eram seus olhos de infinito a bússola que assegurava a Marina o norte próximo de um futuro inabalável. Era sua voz de calmaria o que impedia que as tempestades em copo d’água de Marina se alastrassem pela casa, deixando cinza até o mais límpido dos sóis. Pedro era porto seguro, cais, razão.
Mas Pedro não quis saber de geleia, goiabada, tampouco de café adoçado. Queria manteiga, queijo e café instantâneo puro, sem açúcar. Cansara daquela baboseira de lar e de pares que só ela, na cabeça dela, no mundo mágico dela, havia inventado. A geleia de amoras há muito perdera o sabor, perdera-o com o acento. A goiabada, sempre repetidamente igual, parecia já viscosa pela ação do tempo. Pedro não quis tomar o café, e foi trabalhar com o estômago farto e pesado de tantas coisas não ditas e entaladas na goela.
Marina chorou copiosamente.  Há muito desconfiava que Pedro tivesse outra mulher. “Isso foi trabalho de amarração, guria”, havia dito uma amiga. Pedro perdera as referências: estava frio, seco e distante. Vinha diminuindo as porções de geleia há muito, e naquele dia sequer empunhara o talher. Estava farto. Teria se decidido e resolvido trocar de casa, de braços, de esposa? Tantos anos de dedicação pareciam desmoronar como manteiga derretida em pão quente.
Ligou para Paulo. Se Pedro tivesse alguém, Paulo saberia. Se não tivesse, ao menos forneceria o abraço amigo. Paulo era forte, do tipo centrado, que não se deixava corroer pelas emoções. Se houvesse lógica na hipotética traição de Pedro, ele o diria. Se não, convenceria Marina, por A mais B, de fantasia extrema, e ela até se sentiria culpada. “Vem pra cá e nós conversamos com calma”, disse ele.
Foi, então. Ele a esperava com chá de hibiscos e um Floresta Negra banhado em cerejas. Paulo tinha desses requintes. Conversaram a noite inteira e, pouco a pouco, Marina deixou-se levar pelo raciocínio áspero de Paulo, tão oposto à visível sensibilidade que ele demonstrava à mesa e aos abraços.
Entre um chá e outro, uma fatia de bolo e outra, acabaram abrindo uma garrafa de vinho e comendo as cerejas debaixo dos lençóis. Marina viu em Paulo o acender da lareira em chamas que Pedro há muito havia apagado. Se Pedro era frio como rocha, Paulo era candente como ferro em brasa. Com Paulo, Marina não sonhava porque não tinha tempo para dormir. Marina, finalmente, reconhecia em outro o ardor amoroso que o marido nunca demonstrara.
Naquela noite, Marina descobriu que amava Paulo incondicionalmente. Pela manhã, à hora do café, preparou com cuidado cada pormenor: a geleia de amoras de que ele tanto gostava, as fatias de pão recém-torrado, o café recém-passado-e-adoçado pronto para tomar. A goiabada milimetricamente cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares, tudo pronto, tudo à espera que as geleias unissem o que as mãos de destino de Marina já haviam disposto. Tudo para e por Paulo. Um amor sem medidas.
                Paulo saiu cedo para trabalhar, e disse-lhe, cheio de afeto, que compreenderia que ambos houvessem se deixado levar pela necessidade de afeto e manteria segredo, se ela desejasse regressar a casa. Pedro ligou para Marina, pedindo perdão pela grosseria, reconhecendo seus erros e sentindo-se culpado por não ser-lhe um amante à altura.
                Marina ficou em dúvida. Sabia que com Paulo seria ardorosamente mais feliz, mas não tinha certeza da durabilidade do ardor, da felicidade, sequer tinha certeza da durabilidade de sua própria certeza. Além disso, Pedro esfriara pouco a pouco, mas nunca lhe dera reais motivos para desistir do amor devotado. E havia, também, os vizinhos. Que diriam eles, disso tudo? Tanto tempo erigindo casa e relacionamento, causando inveja aos olhares alheios, desfilando pelas festas e colunas sociais para ver tudo desmoronar por conta de um desagrado repentino de geleias de amora, goiabada e café passado? Não, não se deixaria levar por impulsos impensados. Estava decidida: retornaria aos olhos de infinito de Pedro.
                Nove horas da manhã a campainha tocou. Pedro abriu a porta e, com ela, um sorriso iluminou a sala. Depois notou o cesto, à espera de quem sorveria um novo café da manhã: pão francês quentinho, pronto para derreter a mais dura das manteigas, queijo no lugar da goiabada, café instantâneo e uma bela fatia de Floresta Negra com cerejas.
- Você se comporte, ela já está desconfiando.
                E Paulo, mais uma vez, comeu cerejas debaixo dos lençóis.




"Tinha uma bússola"

Google, sem indicação de autoria

Tinha uma bússola.

Quatro caminhos 
para seguir
quatro possibilidades 
infinitas 
de seguir.

Mas não sabia decidir. 

E, por querer 
o Norte e o Sul
o Leste e o Oeste

Restou 
Sozinho

No centro do mundo

Imundo e

Vazio.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ceia

Google, sem indicação de autoria

Tinhas os olhos de vento
E tragavas com os dentes
O que restava meu

Pedaços me fiz
Comeste um a um

E à ceia
Espalhaste
As migalhas

De um acabado
Sem fim.

Fui vítima
Mártir
E sacrifício

E aqui me tens de novo
Crucificado.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

YIN E YANG

Imagem retirada do Google, sem referências autorais


Aí está algo que sempre me deixou intrigado, na vida: o símbolo do Yin-Yang. Aqueles dois girinos, um sobre o outro, representantes das energias do universo, com seus princípios ativo e passivo, masculino e feminino, branco e negro, sempre me incomodaram de alguma forma.Essa representação do mundo como união de oposições, como necessidade de complementaridade entre as coisas, me inquietava. Porque o Yin-Yang explica a imprescindibilidade de um outro, de um elemento contrário que imponha uma pequena gota de si para desacomodar a nossa porção pacífica de comodidade.  E isso atordoa, atormenta, deprime.
Nasci sozinho, e nunca tive uma gota negra que me movesse da comodidade. Aliás, nunca tive comodidade, sempre fui uma porção líquida de alma que se estendeu pelo mundo em busca de uma gota capaz de dar-lhe forma e vida. Meus pais, findos desde a minha cosmogonia, não me deixaram uma lembrança, um amuleto, uma marca que fosse da sua presença e do seu afeto. Restaram apenas documentos históricos relatando os acontecimentos, e uma ou outra foto para a qual sempre olho, como que buscando qualquer identificação que me permitisse reconhecer ali um dos meus progenitores. E então crio mundos, invento histórias, conto relatos harmoniosos de família e brinco de ser criança escondida, à espera do momento em que o pai, sabendo do esconderijo, finja ainda não ter lhe visto e faça uma cara gostosa de espanto, dando ao pequeno a satisfação de haver enganado um superior.
Mas volta e meia mergulho no poço fundo da realidade e me pego só, ínfima gota isolada que é incapaz de fazer diferença no todo porque lhe é impossível integrá-lo. Nunca tive mulheres, nem amigos, nem nada que desse qualquer ideia de laço afetivo. Verdadeiramente sinto que não sou capaz de completar ninguém e que ninguém nesse mundo será capaz de, um dia, dar-me qualquer ilusão de plenitude.
E hoje, aos 66 anos de idade, pude compreender enfim o porquê disso tudo. Seis, número da conciliação entre opostos, da harmonia – doce ironia – entre os princípios masculino e feminino. Yin e Yang. As dores começaram há dois meses, e o que escondo tem se feito mais aparente a cada dia. Parece que irá romper todas as minhas barreiras e gerar um novo ser.
Ao receber o resultado dos exames, estremeci. Senti um misto de dor e regozijo, como se houvessem pingado ácido em uma ferida aberta e essa dor, de alguma forma, trouxesse-me a felicidade de fazer-me sentir vivo, de compreender que a vida tinha sentido e que eu queria, sim, queria vivê-la. Que o problema não estava em mim, mas que alguma instância divina – sabe-se lá a causa – resolvera dar-me a completude que eu não encontrara em nada no mundo.
Nasci órfão, vivi sozinho e nunca tive ninguém. E apenas aos 66 anos de idade descobri que, devido aos labirintos da genética, meu fenótipo yang guarda um imenso e disforme yin. A dor que me abre feridas e pinga ácido nelas é uma pequena gota de yin que cresce e que, lutando contra aquilo em que eu sempre cri, desacomoda a porção não muito grande de certezas da minha identidade.
Entretanto, apesar disso, o que deveria ser uma tragédia, tornou-se para mim um confuso conforto. Nunca tive a gota negra da alteridade porque me basto, meu yang é casca que guarda a completude. Aos 66 anos de idade, finalmente alcancei o duplo equilíbrio que a numerologia tanto previra.
E, mais uma vez, a alteridade passa a atormentar-me. Que dirão? Que farão? Sou um alien, um monstro, um demônio?

Nesse mundo de farsas, resolvo então vestir a máscara que por tanto tempo cri essência, e passo por ti, leitor, como um qualquer. Não serei cobaia de experimentos mirabolantes nem notícia de tolos jornais alienados e sem conteúdo.A solidão sempre foi minha única e sóbria companheira, e é dela que hei de valer-me até que meu sol se ponha. Ser um novo Tirésias trouxe-me sabedoria o suficiente para saber que as normas desse mundo são vãs demais para compreender a complexidade desse eu-outro que habita em mim. Dentro e fora, casca e fruto, yang e yin.

A Ulisses (indriso)

Os gritos dos outros
Teus outros caminhos
E eu teço a esperar

Mas quando tu chegas

Todos os caminhos
Seguindo teus passos
Me levam pro mar

Quem parte sou eu.

Autoficção

Abraço forte
dádiva certeira

almas unidas
liam sentimentos

beleza rara de um
encontro incerto

rarefazendo todas as certezas
trazendo então tanto encantamento, nestes teus
olhos de redescoberta

NOVENTO

Imagem retirada do Google, sem indicação de autoria
Voa vento ventando
chama vermelha
chave
volúpia do meu amor

Vento venta voando
vermelha rosa
vituper.osa
abrindo os caminhos da dor

Vento voa ventando
nove chaves airosas
nove olores de rosas
fogo , a senda, paixão

Venta vento voando
voa vem furacão
o mundo gira de roda
os ventos tiram do chão

Venta voa ventando
vento chave
chorando
os filhos entoam canção


Voa voa ventando
segredo-chave
se abre
em roda, em oração

Voo a voo chegando
gira a rosa vermelha
roda enrubesce faceira
na gira do lampião

Chega voo voando
grita o toque à alma
venta chora acalma
ama e entende a canção

Vento vento ventando
brisa calma oração
canção do fogo dos olhos
em chamas

de Iansã.

domingo, 25 de agosto de 2013

Da poesia



A tora de madeira, na lareira, parece apagada. Brasa sutil se estabelece ao redor. O calor lateja sob a superfície. Então, apanho o cutucador e, com golpes relativamente fortes, rompo a madeira, fendo a casca. Eis a poesia: fogo latejante que, escondido, se abre em palavras.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

(sem título)

O vinho esperou a ocasião certa.
A roupa, a dança incomum.
Os brincos, aquela festa.

E então veio a Morte:
bebeu,
dançou,
comeu.

E ela, tão cheia de expectativas,
seguiu à espera,
imóvel,
sem embriaguez
nem brilho,

Para uma caixa triste.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Eu-Outro

Olho-me ao espelho
E te encontro
Face marcada pelo devir

Que posso eu definir
Daquilo que não me pertence?

Mas tu,
Tu me conheces
E sabes cada angústia
Cada vazio
Cada expectativa frustrada

Que me aguarda
Oblíqua
E dissimulada
Como os olhos de Capitu.

domingo, 4 de agosto de 2013

Do Relógio

relogio2


O olho
O relógio
A fome
O relógio
A sede
O relógio
O sono
O relógio

O berço
O relógio
O jogo
O relógio
O amor
O relógio
O filho
O relógio

O trabalho
O neto
A vida
O relógio

A beleza
A cor
A alma
O relógio

O fim.
(E o relógio...)



domingo, 28 de julho de 2013

Perdoa o meu jeito torto de te dizer que te amo. Perdoa por brigar, por te fazer todas as injúrias que um mortal possa e por tentar, sempre, mostrar um caminho que eu acho que é melhor porque eu acho que ele é menos doído porque eu acho que tenho que te impedir de sentir dor. Ou talvez eu pense que só eu possa te fazer sentir dor - e o faço tanto! -, a ponto de buscar tua atenção para cada nova venenosa investida argumentativa.
Mas se tu soubesses o quanto eu te admiro e te quero bem, minha pequena, talvez ignorasses o monte de agulhas que lanço da língua e abrisses os braços como anjo da guarda e me afagasses com misericórdia divina. E verias o quanto sou fraco, e como sou frágil e como, independentemente, eu dependo em essência de ti.
E só existo porque tu és o meu outro. E só sou casca porque tu és fruto. E só sou escudo porque és braço que me sustém.  E que por trás de todo esse maquiavelismo fraterno estranho há um bem querer incomensurável e sádico, que crê que fazer doer é forma de impedir-te de sentir as dores do mundo.
E que tudo o que eu quero é o teu abraço. O teu riso incontido e as tuas gargalhadas estrondosas. A tua voz de que tanto reclamo e o brilho do olhar que eu tanto venero em segredo.
Queria dizer-te as mais lindas palavras de amor que houvessem entre todas as línguas. Queria mostrar-te as maravilhas do meu mundo fantástico e fictício, mas ele é só um pedaço oco de madeira comida por cupins. E desmorona. E dói. E sofre.
Porque tu és o Atlas do meu universo e porque, sem ti, as memórias da infância são apenas retratos desbotados pelo tempo. Porque contigo somos, ainda que eu finja ser todo. Porque teu riso é parte que me falta, aqui dentro.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dissertação


Retirado do Google, sem indicação de autoria

E o medo
Do espaço
Do tempo
Que tenho

É muito maior
Do que as páginas
Que eu não consigo
Vencer.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Poesia no Bar




Sorve o aroma.
Degusta teu vinho
Escuta o poema.

E crê
Que é tua
A palavra
Perdida

domingo, 12 de maio de 2013

Mensagem aos Pais - Formatura de Letras (FURG, maio de 2013)


Mães e Pais:
Boa noite a todos. Hoje é um dia muito especial para todos nós, porque estamos fechando um ciclo. Fechar ciclos implica começar outros novos, recuperar o passado para, reestruturando-o, estabelecer um novo futuro. Nós poderíamos, aqui, enumerar todos aqueles argumentos que toda formatura/todo formando usa pra falar dos seus pais. Diríamos que só vocês sabem o que é a dor cotidiana de ver uma parte da gente sofrendo com trabalhos, com provas, com notas, com exames. Diríamos, também, que só vocês sabem o que é encontrar-nos extremamente estressados, cheios de coisas por fazer e sem tempo pra sentar frente à TV, num domingo, e ver um filme. Poderíamos dizer, ainda, o quanto foi difícil para todos vocês ver-nos em desespero e nada poder fazer. Mas o que esse discurso pretende mostrar é que as palavras, mesmo pra quem se especializa nelas, são ainda insuficientes pra demonstrar aquilo que o coração solicita.
Aqui, como porta-voz de cada um de seus filhos, peço a todos que fechem os olhos e que ouçam estas palavras como se a voz que as emana partisse de cada um deles, de cada parte de vocês que, neste momento, encontra-se aqui neste palco, os olhos cheios d’água, o sorriso incontido,  as trêmulas mãos a segurar o diploma. O DIPLOMA, a prova de que o sonho é real. Mas, como eu disse, muito desse sonho precisa ser recuperado, porque as molas propulsoras da nossa felicidade tão demarcada, hoje, pelo calendário, remontam miticamente à infância, tempo-espaço em que começamos a trilhar os nossos primeiros passos na caminhada da vida.
Fechemos os olhos. Fecha os olhos, mãe. Fecha os teus, pai.
Quando fecho os olhos e penso em ti, mãe, a primeira coisa de que lembro é do teu abraço. Eu não recordo quando exatamente ele se tornou tão importante, mas eu o sinto, ainda hoje, com a mesma intensidade. Lembro-me do conforto do teu sorriso e te sinto a me ninar, já grande, quando chorei pela última vez. E há algo nas nossas fotos que me fazem sentir algo sempre novo, uma nostalgia imensa de um tempo que a minha memória não consegue resgatar. Talvez o esquecimento seja mesmo vontade de não lembrar, para poder voltar a ti e, vendo-te distraída, reencontrar no teu abraço a essência da minha identidade. Porque, com tanto mundo pela frente, com tanta gente me exigindo tanta coisa, eu sei que em teu abraço eu encontro refúgio. Porque tu és minha primeira e eterna morada.
E tu, pai, quando fecho os olhos e penso em ti, lembro sempre da minha primeira queda. Engraçado, não é? Mas lembro disso com tanta força que me é impossível dizer aqui outra imagem que não a de teus braços a me levantarem e de teus lábios, com um sorriso, a me dizerem que esse foi só o primeiro tombo, que muitos ainda virão e que eu serei forte o suficiente pra encarar o próximo, e o próximo, e o próximo, até que um dia, sentindo o gosto da liberdade, eu perca o medo de cair da bicicleta e siga em frente. Lembro também do teu afago e da segurança que me dá o teu abraço. Porque, se o abraço da mãe é refúgio, o teu é fortaleza. Contigo eu me sinto protegido e encorajado porque sei que tu és meu incentivo mesmo quando sentes que eu vou cair. Porque tu sabes que eu preciso disso para que a vida não faça de mim aquilo que tanto te esmeraste para que eu não fosse: alguém cheio de soberba e frágil perante os tropeços do caminho.

E, olhando pra vocês, aqui, hoje, as lembranças passam por mim como cenas de um filme. E entre sorrisos, lembranças e lágrimas, eu sinto vontade é de pedir desculpas. De olhar pra vocês com cara de quem quebrou a louça e pedir perdão como se tivesse feito a pior coisa do mundo. A gente potencializa tanto as coisas, quando a emoção predomina... E é por isso que eu aproveito o momento pra pedir, sinceramente, que vocês me desculpem. Desculpem pela minha teimosia. Desculpem pelas minhas manias. Desculpem pelas minhas grosserias, porque sei que quando eu começo a sufocar vocês são, sempre, os primeiros atingidos.
Desculpem pelos meus erros e obrigado por compreendê-los. Aliás, MUITO OBRIGADO por terem feito de mim o que sou, por terem suportado os meus dias difíceis, por terem me dado forças pra continuar quando tudo parecia perdido – e não falo só de graduação, não, falo de vida. Obrigado, acima de tudo, por terem aberto os braços pra me receber na chegada, por terem mostrado um sorriso quando a vontade era de chorar, por terem cuidado o meu sono e os meus sonhos até que eu tivesse autonomia o suficiente para realizá-los. Obrigado por terem me dado e por hoje me darem esse abraço que, eu sei, é muito maior do que tudo o que o dia de hoje representa. Obrigado por me mostrarem que ainda sou humano, quando o mundo me exige e me esgota. Obrigado por manterem em mim a criança, que há alguns anos atrás, não sabia esboçar palavra. Obrigado por me mostrarem que hoje, crescido e com um diploma de graduação em mãos, eu sou ainda aquela criança, que sente medo, que ri e que chora, às vezes sem compreender o motivo, e que aguarda ansiosamente pelo fim dessa colação de grau para, livre das formalidades, jogar-se nos braços, no afago, no amor infinito de vocês. Obrigado por serem meu lar.
Dizer que os amo, hoje, seria banalizar demais o que vocês são pra mim. E, podem ter certeza, eu sou mais forte e mais pleno porque sei que vocês estão comigo, da maneira que for, onde for, como for preciso.
Obrigado por sermos o que somos juntos.
Boa noite.


* Texto escrito por Giliard Ávila Barbosa e lido por Shelem Piccini Escobar, na colação de grau dos formandos em Letras, dia 03 de maio de 2013, na Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

segunda-feira, 1 de abril de 2013

TDJFRPM 3

É como se eu estivesse alimentando a minha própria morte. Eu sinto ele mover-se dentro de mim como se um monstro me roesse as vísceras. Eu sangro. Eu sangro e choro e dói pensar que ele destruiu todos os meus sonhos. Nunca mais serei a mesma, e devo isso a ele. Ele mudou a minha vida, se é que em algum momento eu tive uma. Se é que eu ainda tenho uma. Se é que agora eu tenho uma. E o que me revolta é não saber-lhe sequer a fisionomia, porque isso talvez redimisse o meu asco à previsão. E se ele for copiado? E se ele for cópia? E se eles forem, um ao outro, o complemento que falta à minha morte?

TDJFRPM 2

Mal tenho conseguido dormir. Essas lições têm me atordoado demais. Não consigo mais fugir nelas. Nem do desprezo dela. Nem do olhar de reprovação. Ela me odeia desde a primeira vez que me viu, é transparente. E, se nem ela, que só tem a mim, me quer, que motivo tenho eu pra permanecer? Nós só temos um ao outro, e ela insiste em renegar a minha presença como se eu fosse uma chaga aberta no pântano da sua existência, esperando o momento certo pra anunciar a tetania de uma dor que não tem remédio.

sábado, 30 de março de 2013

TDJFRPM 1

Vomitei de novo. Minha mãe anda desconfiada.
E confesso que, por mim, teria vomitado de novo. E mais. Muito mais. Teria vomitado para expurgar o asco que me toma cada vez que lembro do gosto, do cheiro, do jocoso vestígio de esgoto que me obrigaram a abrigar. Se ao menos eu tivesse escolhido esse fardo! Mas não. Todos querem - e se sentem no direito de querê-lo - que eu goste, geste e ame a marca da minha dor.
Rosa diz que Deus castiga, e que ele não nos dá uma cruz que a gente não possa carregar. Só pra começar, eu não sou Ele e, se fosse, teria matado aquele infeliz no primeiro pensamento dele, no primeiro contato simulado.
E, se Deus precisa nos dar dores - e quem pôs o próprio filho na cruz pra comprovar sua autoridade não pode me julgar - é porque ele é incapaz de amar. Ou será que sou eu que amo tanto esse germe do sofrimento que desejo matá-lo por um amor confuso - compaixão e zelo?
O filho da dor. É impossível que ele nasça e que eu o ame de um afeto tranquilo. Nem Iracema - nem a romântica literatura! - conseguiu conviver com isso.
E, se Deus pôs o filho - primogênito e único - na cruz, pelo bem de todos, por que não posso eu fazer o mesmo? Não seria a paz de espírito um bem também? Paz de espírito minha e desse inocente que já carrega, na testa, a marca de Caim.

sábado, 16 de março de 2013

De mendigos e Coca-Cola

Um mendigo tosco, sujo e deficiente, senta-se atrás de mim.
E, inquieto, toma seus últimos goles de Coca-Cola
- maldito mundo do capital -
como se jamais fosse reencontrar
tamanho néctar.

Ergue-se e, torto,
verte toscas gotículas
do sacro líquido
por sobre a minha cabeça.

Ao que levanto exaltado,
enquanto ele pede que eu deposite o lixo
em seu devido lugar.

E, nos olhos dos outros
nos gestos dos outros
asco é a palavra latente
como se ele
- caixa de Pandora -
contivesse todos os males do mundo.

E o seu cheiro podre,
seu aspecto podre,
este imenso pedaço podre de nada
o que é?

É a verdade.

Sim, a verdade.
porque, na sua podridão,
ele mantém a pureza
que guarda quem já não tem o que perder.

E eu,
que me visto toscamente melhor,
que cheiro infinitamente melhor,
que sou polido, educado, querido, exemplar...
o que sou?

Um conjunto harmônico de podridões veladas.

Porque com essa roupa,
esse cheiro,
essa educação,
esse sorriso no rosto,
sou apenas o retrato que pintaram do que nunca fui.

Há um descompasse
entre a máscara que me emprestaram
e a fétida, hipócrita, cômoda
carniça
que se esconde sob os meus tecidos.

Parece mentira,
mas toscas gotas de Coca-Cola
hoje
me fizeram pensar.

E me fizeram perceber
que o tosco mendigo sujo deficiente,
em sua casca,
era o meu eu de dentro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Convocatória



Vem.

A casa tá pronta
A mala tá pronta
E já tem um espaço
Do lado direito
Do guardarroupas

O coração tá cheio
Mas este foi ocupado
Desde antes
De a cabeça te aceitar...

Vem.

A pressa não é tua
A pressa é minha
Que já não suporto
Digerir-te à distância

Deixa-me sorver-te
Absorver-te
Degustar-te
Viver-te
Pela eternidade.

Vem.
E me torna completo.

Porque assim,
Vez ou outra,
Eu sou um nada
Sem ti.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Luto

Vidas
São ceifadas
Consumidas
Pelo fogo
Pelo álcool
Pela espuma

E a ferida
Tão doída
Tão nostálgica

É o que fica
Do sorriso
Já desfeito
Por saudade
E em brumas.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Penélope*

Olha, amiga
eu bem desejo
ver-te de novo
e no teu aconchego
encontrar
novamente
a resposta
para as minhas dores.

Mas esse mundo
tão cheio de flores
que um dia tivemos
hoje é nada
apenas espera
e desespero.

Segue, amiga
segue teu rumo
que eu, perdido,
entre Circes
Calipsos
Andrômacas
hei de um dia
encontrar-te
novamente.

Mas o mar é longo
Os caminhos vãos
E tu, há muito
Já não és meu norte.


* Resposta contraditória a um poema de Lilian Ney. Mas quem disse que o homem não é contradição?

domingo, 13 de janeiro de 2013

Oração a Oxaguian

Oxaguian - Claudia Krindges



Que os males dos meus inimigos encontrem, em teu escudo, reflexo especular.
Que a tua espada abra os meus caminhos e me auxilie na hora precisa.
Que o meu pensamento se eleve a ti
E que eu consiga encontrar a ferramenta necessária
Para pilar os problemas que me afligirem.

Em ti confio
Contigo guerreio
E juntos vencemos.

Porque eu ando vestido com as armas que Jorge te deu
E carrego comigo tua sagacidade e inteligência.

Que eu tenha tua elegância perante os contratempos
E tua agilidade em encontrar soluções.

Que nós sejamos um
E que possamos sempre dançar
Quando tudo parecer perdido.

E, quando Iku chegar,
Que eu te reencontre
De braços abertos
Após uma longa
E vitoriosa
Batalha.

Blavino III - Metapoético

blavino

é o retorno
à origem plena

é prever porvires
de um imenso ir e vir
em crescentes ascensões

que culminam em verso central

e as palavras s'esmorecem
buscando um universo
que é luz-escuridão

e o recriarão
ao fim feliz

doverso.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Blavino II

feito

o dito
está dito

não interdito
maldito desfecho
que não mais se reverte

viver, sim, é des...tru (ir-se)

em  pequenos (mal)feitos
um (a) corda fere
cada palavra

que desfeita
nossangra

[e]dói.

Blavino I

amar

é crescer
dentro de ti

sentir-te nascer
renascendo-me em ti
fundir-nos, dois-um, a sós

nas (re) vira - voltas | da vida

é que desfazem-se os nós
a perderem-se os laços
dos nossos abraços

na tua partida
sou pedaços

e só.



* O blavino é uma forma poética ideada pelos poetas brasileiros Juliana Ruas Blasina e Volmar Camargo Junior. Este reproduz a imagem de um triângulo ou pirâmide, apresentando uma estrutura estrófica 1-2-3-1-3-2-1. O primeiro verso está formado por uma única palavra e os seguintes vão aumentando progressivamente o seu número de sílabas, até alcançar a estrofe de verso único central, que é a linha poética de maior medida. Na segunda metade do poema, a medida das linhas decresce progressivamente até o último verso, que também está constituído por uma única palavra.