De mendigos e Coca-Cola
Um mendigo tosco, sujo e deficiente, senta-se atrás de mim.
E, inquieto, toma seus últimos goles de Coca-Cola
- maldito mundo do capital -
como se jamais fosse reencontrar
tamanho néctar.
Ergue-se e, torto,
verte toscas gotículas
do sacro líquido
por sobre a minha cabeça.
Ao que levanto exaltado,
enquanto ele pede que eu deposite o lixo
em seu devido lugar.
E, nos olhos dos outros
nos gestos dos outros
asco é a palavra latente
como se ele
- caixa de Pandora -
contivesse todos os males do mundo.
E o seu cheiro podre,
seu aspecto podre,
este imenso pedaço podre de nada
o que é?
É a verdade.
Sim, a verdade.
porque, na sua podridão,
ele mantém a pureza
que guarda quem já não tem o que perder.
E eu,
que me visto toscamente melhor,
que cheiro infinitamente melhor,
que sou polido, educado, querido, exemplar...
o que sou?
Um conjunto harmônico de podridões veladas.
Porque com essa roupa,
esse cheiro,
essa educação,
esse sorriso no rosto,
sou apenas o retrato que pintaram do que nunca fui.
Há um descompasse
entre a máscara que me emprestaram
e a fétida, hipócrita, cômoda
carniça
que se esconde sob os meus tecidos.
Parece mentira,
mas toscas gotas de Coca-Cola
hoje
me fizeram pensar.
E me fizeram perceber
que o tosco mendigo sujo deficiente,
em sua casca,
era o meu eu de dentro.
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