domingo, 25 de agosto de 2013

Da poesia



A tora de madeira, na lareira, parece apagada. Brasa sutil se estabelece ao redor. O calor lateja sob a superfície. Então, apanho o cutucador e, com golpes relativamente fortes, rompo a madeira, fendo a casca. Eis a poesia: fogo latejante que, escondido, se abre em palavras.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

(sem título)

O vinho esperou a ocasião certa.
A roupa, a dança incomum.
Os brincos, aquela festa.

E então veio a Morte:
bebeu,
dançou,
comeu.

E ela, tão cheia de expectativas,
seguiu à espera,
imóvel,
sem embriaguez
nem brilho,

Para uma caixa triste.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Eu-Outro

Olho-me ao espelho
E te encontro
Face marcada pelo devir

Que posso eu definir
Daquilo que não me pertence?

Mas tu,
Tu me conheces
E sabes cada angústia
Cada vazio
Cada expectativa frustrada

Que me aguarda
Oblíqua
E dissimulada
Como os olhos de Capitu.

domingo, 4 de agosto de 2013

Do Relógio

relogio2


O olho
O relógio
A fome
O relógio
A sede
O relógio
O sono
O relógio

O berço
O relógio
O jogo
O relógio
O amor
O relógio
O filho
O relógio

O trabalho
O neto
A vida
O relógio

A beleza
A cor
A alma
O relógio

O fim.
(E o relógio...)