quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Expectativas

A crise sempre começava não se sabia por quem. Gustavo se frustrava porque esperava que Clarissa fizesse algo que não fazia. Clarissa esperava que Gustavo mais animado, mais divertido, e levasse a vida menos a sério.
E então ambos agiam. Clarissa tentava corresponder às expectativas de Gustavo, e tornava-se seríssima, tinha crises diárias e imensas em relação a questões antes não priorizadas por ela. Gustavo tentava não dispensar atenção àquilo que dantes o inquietava tanto.
E então ambos, novamente, se frustravam.
O problema dos dois estava no amor. Amavam-se tanto que, às vezes, exigiam demais um do outro. Ele queria que ela a entendesse, ela queria que ele fosse menos egoísta. Mas ninguém é perfeito e por isso eles não conseguiam correspondência plena nos momentos de crise.
Amavam-se a ponto de um tentar, por compaixão, corresponder um pouco melhor às expectativas do outro. E aí ambos pecavam por excesso de zelo. Ele se tornava em quem não era por ela, e ela fazia o mesmo por ele.
O que os dois não compreendiam é que eram o que eram um para o outro porque eram como eram. Casal completamente completo é um pleonasmo monótono e (que pleonasmo!) sem graça.
A realidade é que a gente ama o outro pelo que ele é, e é justamente o fato de ele não ser exatamente como imaginamos que fosse que torna a relação fantástica.
Clarissa e Gustavo amavam-se pelo que eram, pelo que não eram e pelo que gostariam que fossem. Aí, sim, estava a magia daquele relacionamento. E quem nunca teve crises amorosas com a pessoa mais incrível que conhece, que atire a primeira pedra.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Bendita aliança

Um belo dia de sol. Um calor dos infernos, e eu busco a sombra necessária para fazer as leituras de que preciso para a seleção. Descansado, abro a minha mochila e dela retiro o bendito livro cuja leitura me pode custar a entrada na pós-graduação. Abro-o, e então...
Percebo que estou sem a aliança. É fatal: gaguejo, a boca seca, o coração acelera e sufoca. Sinto-me como se estivesse cometendo um crime. Como se a estivesse afastando violenta e eternamente. E o que é pior: permitindo por a + b que o inverso seja válido.
Procuro não olhar para o círculo de metal que envolve (envolvia) meu dedo anular. Olho para as linhas, e elas me confundem. Olho para o livro, e ele não é nada. Meus olhos só sabem mirar tua ausência.
Daí começo a rir da situação, e a rir do modo como me conquistaste e te fazes presente. uma aliança! Um simples anel capaz de fazer-me sentir o peso dos crimes que não cometi.
E então escrevo. Escrevo para redimir-me. Escrevo para conciliar-me. Comigo e contigo.
E assim perco meu tempo, porque nem a escrita consegue expurgar a culpa que sinto quando, metonímica e inconscientemente, esqueço de nós.