domingo, 8 de setembro de 2013

Um amor sem medidas


Marina amava Pedro incondicionalmente. À hora do café, preparava com cuidado cada pormenor: a geleia de amoras de que ele tanto gostava, as fatias de pão recém-torrado, o café recém-passado-e-adoçado pronto para tomar. A goiabada milimetricamente cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares, tudo pronto, tudo à espera que as geleias unissem o que as mãos de destino de Marina já haviam disposto. Tudo para e por Pedro.
Pedro era a casa da amada. A ele ela recorria sempre que as coisas não davam certo, na enfermaria. Eram os seus braços de afago o que confortava a dor de ter de suportar o olhar insuportável de reprovação de Edite a cada nova tarefa. Eram seus olhos de infinito a bússola que assegurava a Marina o norte próximo de um futuro inabalável. Era sua voz de calmaria o que impedia que as tempestades em copo d’água de Marina se alastrassem pela casa, deixando cinza até o mais límpido dos sóis. Pedro era porto seguro, cais, razão.
Mas Pedro não quis saber de geleia, goiabada, tampouco de café adoçado. Queria manteiga, queijo e café instantâneo puro, sem açúcar. Cansara daquela baboseira de lar e de pares que só ela, na cabeça dela, no mundo mágico dela, havia inventado. A geleia de amoras há muito perdera o sabor, perdera-o com o acento. A goiabada, sempre repetidamente igual, parecia já viscosa pela ação do tempo. Pedro não quis tomar o café, e foi trabalhar com o estômago farto e pesado de tantas coisas não ditas e entaladas na goela.
Marina chorou copiosamente.  Há muito desconfiava que Pedro tivesse outra mulher. “Isso foi trabalho de amarração, guria”, havia dito uma amiga. Pedro perdera as referências: estava frio, seco e distante. Vinha diminuindo as porções de geleia há muito, e naquele dia sequer empunhara o talher. Estava farto. Teria se decidido e resolvido trocar de casa, de braços, de esposa? Tantos anos de dedicação pareciam desmoronar como manteiga derretida em pão quente.
Ligou para Paulo. Se Pedro tivesse alguém, Paulo saberia. Se não tivesse, ao menos forneceria o abraço amigo. Paulo era forte, do tipo centrado, que não se deixava corroer pelas emoções. Se houvesse lógica na hipotética traição de Pedro, ele o diria. Se não, convenceria Marina, por A mais B, de fantasia extrema, e ela até se sentiria culpada. “Vem pra cá e nós conversamos com calma”, disse ele.
Foi, então. Ele a esperava com chá de hibiscos e um Floresta Negra banhado em cerejas. Paulo tinha desses requintes. Conversaram a noite inteira e, pouco a pouco, Marina deixou-se levar pelo raciocínio áspero de Paulo, tão oposto à visível sensibilidade que ele demonstrava à mesa e aos abraços.
Entre um chá e outro, uma fatia de bolo e outra, acabaram abrindo uma garrafa de vinho e comendo as cerejas debaixo dos lençóis. Marina viu em Paulo o acender da lareira em chamas que Pedro há muito havia apagado. Se Pedro era frio como rocha, Paulo era candente como ferro em brasa. Com Paulo, Marina não sonhava porque não tinha tempo para dormir. Marina, finalmente, reconhecia em outro o ardor amoroso que o marido nunca demonstrara.
Naquela noite, Marina descobriu que amava Paulo incondicionalmente. Pela manhã, à hora do café, preparou com cuidado cada pormenor: a geleia de amoras de que ele tanto gostava, as fatias de pão recém-torrado, o café recém-passado-e-adoçado pronto para tomar. A goiabada milimetricamente cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares, tudo pronto, tudo à espera que as geleias unissem o que as mãos de destino de Marina já haviam disposto. Tudo para e por Paulo. Um amor sem medidas.
                Paulo saiu cedo para trabalhar, e disse-lhe, cheio de afeto, que compreenderia que ambos houvessem se deixado levar pela necessidade de afeto e manteria segredo, se ela desejasse regressar a casa. Pedro ligou para Marina, pedindo perdão pela grosseria, reconhecendo seus erros e sentindo-se culpado por não ser-lhe um amante à altura.
                Marina ficou em dúvida. Sabia que com Paulo seria ardorosamente mais feliz, mas não tinha certeza da durabilidade do ardor, da felicidade, sequer tinha certeza da durabilidade de sua própria certeza. Além disso, Pedro esfriara pouco a pouco, mas nunca lhe dera reais motivos para desistir do amor devotado. E havia, também, os vizinhos. Que diriam eles, disso tudo? Tanto tempo erigindo casa e relacionamento, causando inveja aos olhares alheios, desfilando pelas festas e colunas sociais para ver tudo desmoronar por conta de um desagrado repentino de geleias de amora, goiabada e café passado? Não, não se deixaria levar por impulsos impensados. Estava decidida: retornaria aos olhos de infinito de Pedro.
                Nove horas da manhã a campainha tocou. Pedro abriu a porta e, com ela, um sorriso iluminou a sala. Depois notou o cesto, à espera de quem sorveria um novo café da manhã: pão francês quentinho, pronto para derreter a mais dura das manteigas, queijo no lugar da goiabada, café instantâneo e uma bela fatia de Floresta Negra com cerejas.
- Você se comporte, ela já está desconfiando.
                E Paulo, mais uma vez, comeu cerejas debaixo dos lençóis.




2 comentários:

  1. Num emaranhado de infelicidades indelicadas e escondidas, alguém goza de um sorriso e com um sorriso. Afinal, a vida tem disso: esconder a felicidade. Muito bem escrito, com um traço, uma linha nada tênue de humor, ao final, e a condução perfeita. Parabéns, mano véio. Muito bom!

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  2. Perfeição, Gi!

    Quero o cesto da Marina!

    Beijo

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