Marina amava
Pedro incondicionalmente. À hora do café, preparava com cuidado cada pormenor:
a geleia de amoras de que ele tanto gostava, as fatias de pão recém-torrado, o
café recém-passado-e-adoçado pronto para tomar. A goiabada milimetricamente
cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares, tudo pronto, tudo à espera que as geleias
unissem o que as mãos de destino de Marina já haviam disposto. Tudo para e por
Pedro.
Pedro era a
casa da amada. A ele ela recorria sempre que as coisas não davam certo, na
enfermaria. Eram os seus braços de afago o que confortava a dor de ter de
suportar o olhar insuportável de reprovação de Edite a cada nova tarefa. Eram
seus olhos de infinito a bússola que assegurava a Marina o norte próximo de um
futuro inabalável. Era sua voz de calmaria o que impedia que as tempestades em
copo d’água de Marina se alastrassem pela casa, deixando cinza até o mais
límpido dos sóis. Pedro era porto seguro, cais, razão.
Mas Pedro não
quis saber de geleia, goiabada, tampouco de café adoçado. Queria manteiga,
queijo e café instantâneo puro, sem açúcar. Cansara daquela baboseira de lar e
de pares que só ela, na cabeça dela, no mundo mágico dela, havia inventado. A
geleia de amoras há muito perdera o sabor, perdera-o com o acento. A goiabada,
sempre repetidamente igual, parecia já viscosa pela ação do tempo. Pedro não
quis tomar o café, e foi trabalhar com o estômago farto e pesado de tantas
coisas não ditas e entaladas na goela.
Marina chorou
copiosamente. Há muito desconfiava que
Pedro tivesse outra mulher. “Isso foi trabalho de amarração, guria”, havia dito
uma amiga. Pedro perdera as referências: estava frio, seco e distante. Vinha
diminuindo as porções de geleia há muito, e naquele dia sequer empunhara o
talher. Estava farto. Teria se decidido e resolvido trocar de casa, de braços,
de esposa? Tantos anos de dedicação pareciam desmoronar como manteiga derretida
em pão quente.
Ligou para
Paulo. Se Pedro tivesse alguém, Paulo saberia. Se não tivesse, ao menos
forneceria o abraço amigo. Paulo era forte, do tipo centrado, que não se
deixava corroer pelas emoções. Se houvesse lógica na hipotética traição de
Pedro, ele o diria. Se não, convenceria Marina, por A mais B, de fantasia
extrema, e ela até se sentiria culpada. “Vem pra cá e nós conversamos com
calma”, disse ele.
Foi, então.
Ele a esperava com chá de hibiscos e um Floresta Negra banhado em cerejas.
Paulo tinha desses requintes. Conversaram a noite inteira e, pouco a pouco,
Marina deixou-se levar pelo raciocínio áspero de Paulo, tão oposto à visível
sensibilidade que ele demonstrava à mesa e aos abraços.
Entre um chá e
outro, uma fatia de bolo e outra, acabaram abrindo uma garrafa de vinho e
comendo as cerejas debaixo dos lençóis. Marina viu em Paulo o acender da
lareira em chamas que Pedro há muito havia apagado. Se Pedro era frio como
rocha, Paulo era candente como ferro em brasa. Com Paulo, Marina não sonhava
porque não tinha tempo para dormir. Marina, finalmente, reconhecia em outro o
ardor amoroso que o marido nunca demonstrara.
Naquela noite,
Marina descobriu que amava Paulo incondicionalmente. Pela manhã, à hora do
café, preparou com cuidado cada pormenor: a geleia de amoras de que ele tanto
gostava, as fatias de pão recém-torrado, o café recém-passado-e-adoçado pronto
para tomar. A goiabada milimetricamente cortada em cubos de 2x2. Tudo em pares,
tudo pronto, tudo à espera que as geleias unissem o que as mãos de destino de
Marina já haviam disposto. Tudo para e por Paulo. Um amor sem medidas.
Paulo
saiu cedo para trabalhar, e disse-lhe, cheio de afeto, que compreenderia que
ambos houvessem se deixado levar pela necessidade de afeto e manteria segredo,
se ela desejasse regressar a casa. Pedro ligou para Marina, pedindo perdão pela
grosseria, reconhecendo seus erros e sentindo-se culpado por não ser-lhe um
amante à altura.
Marina
ficou em dúvida. Sabia que com Paulo seria ardorosamente mais feliz, mas não
tinha certeza da durabilidade do ardor, da felicidade, sequer tinha certeza da
durabilidade de sua própria certeza. Além disso, Pedro esfriara pouco a pouco,
mas nunca lhe dera reais motivos para desistir do amor devotado. E havia,
também, os vizinhos. Que diriam eles, disso tudo? Tanto tempo erigindo casa e
relacionamento, causando inveja aos olhares alheios, desfilando pelas festas e
colunas sociais para ver tudo desmoronar por conta de um desagrado repentino de
geleias de amora, goiabada e café passado? Não, não se deixaria levar por
impulsos impensados. Estava decidida: retornaria aos olhos de infinito de
Pedro.
Nove
horas da manhã a campainha tocou. Pedro abriu a porta e, com ela, um sorriso
iluminou a sala. Depois notou o cesto, à espera de quem sorveria um novo café
da manhã: pão francês quentinho, pronto para derreter a mais dura das manteigas,
queijo no lugar da goiabada, café instantâneo e uma bela fatia de Floresta
Negra com cerejas.
- Você se
comporte, ela já está desconfiando.
E
Paulo, mais uma vez, comeu cerejas debaixo dos lençóis.
Num emaranhado de infelicidades indelicadas e escondidas, alguém goza de um sorriso e com um sorriso. Afinal, a vida tem disso: esconder a felicidade. Muito bem escrito, com um traço, uma linha nada tênue de humor, ao final, e a condução perfeita. Parabéns, mano véio. Muito bom!
ResponderExcluirPerfeição, Gi!
ResponderExcluirQuero o cesto da Marina!
Beijo