![]() |
| Imagem retirada do Google, sem referências autorais |
Aí está algo que
sempre me deixou intrigado, na vida: o símbolo do Yin-Yang. Aqueles dois
girinos, um sobre o outro, representantes das energias do universo, com seus
princípios ativo e passivo, masculino e feminino, branco e negro, sempre me incomodaram
de alguma forma.Essa representação do mundo como união de oposições, como
necessidade de complementaridade entre as coisas, me inquietava. Porque o
Yin-Yang explica a imprescindibilidade de um outro, de um elemento contrário
que imponha uma pequena gota de si para desacomodar a nossa porção pacífica de
comodidade. E isso atordoa, atormenta,
deprime.
Nasci sozinho, e
nunca tive uma gota negra que me movesse da comodidade. Aliás, nunca tive
comodidade, sempre fui uma porção líquida de alma que se estendeu pelo mundo em
busca de uma gota capaz de dar-lhe forma e vida. Meus pais, findos desde a
minha cosmogonia, não me deixaram uma lembrança, um amuleto, uma marca que
fosse da sua presença e do seu afeto. Restaram apenas documentos históricos
relatando os acontecimentos, e uma ou outra foto para a qual sempre olho, como
que buscando qualquer identificação que me permitisse reconhecer ali um dos
meus progenitores. E então crio mundos, invento histórias, conto relatos
harmoniosos de família e brinco de ser criança escondida, à espera do momento
em que o pai, sabendo do esconderijo, finja ainda não ter lhe visto e faça uma
cara gostosa de espanto, dando ao pequeno a satisfação de haver enganado um
superior.
Mas volta e meia
mergulho no poço fundo da realidade e me pego só, ínfima gota isolada que é
incapaz de fazer diferença no todo porque lhe é impossível integrá-lo. Nunca
tive mulheres, nem amigos, nem nada que desse qualquer ideia de laço afetivo.
Verdadeiramente sinto que não sou capaz de completar ninguém e que ninguém
nesse mundo será capaz de, um dia, dar-me qualquer ilusão de plenitude.
E hoje, aos 66
anos de idade, pude compreender enfim o porquê disso tudo. Seis, número da
conciliação entre opostos, da harmonia – doce ironia – entre os princípios
masculino e feminino. Yin e Yang. As dores começaram há dois meses, e o que
escondo tem se feito mais aparente a cada dia. Parece que irá romper todas as
minhas barreiras e gerar um novo ser.
Ao receber o
resultado dos exames, estremeci. Senti um misto de dor e regozijo, como se
houvessem pingado ácido em uma ferida aberta e essa dor, de alguma forma,
trouxesse-me a felicidade de fazer-me sentir vivo, de compreender que a vida
tinha sentido e que eu queria, sim, queria vivê-la. Que o problema não estava
em mim, mas que alguma instância divina – sabe-se lá a causa – resolvera dar-me
a completude que eu não encontrara em nada no mundo.
Nasci órfão,
vivi sozinho e nunca tive ninguém. E apenas aos 66 anos de idade descobri que,
devido aos labirintos da genética, meu fenótipo yang guarda um imenso e
disforme yin. A dor que me abre feridas e pinga ácido nelas é uma pequena gota
de yin que cresce e que, lutando contra aquilo em que eu sempre cri, desacomoda
a porção não muito grande de certezas da minha identidade.
Entretanto,
apesar disso, o que deveria ser uma tragédia, tornou-se para mim um confuso
conforto. Nunca tive a gota negra da alteridade porque me basto, meu yang é
casca que guarda a completude. Aos 66 anos de idade, finalmente alcancei o
duplo equilíbrio que a numerologia tanto previra.
E, mais uma vez,
a alteridade passa a atormentar-me. Que dirão? Que farão? Sou um alien, um
monstro, um demônio?
Nesse mundo de
farsas, resolvo então vestir a máscara que por tanto tempo cri essência, e
passo por ti, leitor, como um qualquer. Não serei cobaia de experimentos
mirabolantes nem notícia de tolos jornais alienados e sem conteúdo.A solidão
sempre foi minha única e sóbria companheira, e é dela que hei de valer-me até
que meu sol se ponha. Ser um novo Tirésias trouxe-me sabedoria o suficiente
para saber que as normas desse mundo são vãs demais para compreender a
complexidade desse eu-outro que habita em mim. Dentro e fora, casca e fruto,
yang e yin.

Nenhum comentário:
Postar um comentário