Arnaldo já
conhecia o roteiro: piscadinha de olho, olhada fixa e esboço de um sorriso, uma
desculpa pra se aproximar e pronto, era só arrastar a moça pra um motelzinho
qualquer e se satisfazer. Tinha conseguido mais uma safada pra preencher a
lista não realizada na adolescência.
Algumas se
faziam de difíceis, outras já iam abrindo as pernas tão logo desciam do carro.
Outras, ainda, não chegavam sequer a sair dele. O mapa feminino era sempre o
mesmo: mão nas coxas enquanto dirigia, um carinho nos cabelos – pra não parecer
tarado demais – e, estacionasse em algum lugar discreto, puxava a mulher pelo
pescoço e já iniciava carinhos mais ousados, que a minha pudicícia de narrador sem
público-alvo me impede de contar.
E assim
passavam Claudinhas, Joanas, Marinas, Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas
conheciam o melhor de Arnaldo, como se o tivessem por uma única vez. E
realmente o tinham em dose única, se é que alguma vez o tivessem de fato.
Ocorre que
Arnaldo era casado, mas não conseguia controlar os impulsos que lhe
atormentavam o espírito. Queria manter-se fiel a Silvana, amava-a mais que tudo
no mundo. Não cansava de dar-lhe presentes e de elogiá-la, mas também não
conseguia dar conta dos próprios desejos. Já havia feito de tudo: masturbação
diária, água gelada a cada maldito pensamento, abstenção sexual para tentar perder
o desejo, vídeos na internet.
Não adiantava
nada. Ao passar do primeiro par de pernas, Arnaldo dava um jeito de pular a
cerca e entrar no paraíso momentâneo do prazer proibido. E, a cada gozo, sentia
uma culpa incomensurável. E tremendamente hipócrita, porque não havia remorso que
o fizesse frear a vontade imensa de burlar as regras do amor correspondido.
Assim, para
tentar parecer menos cafajeste, Arnaldo elaborou um código próprio de conduta: transava
apenas uma vez com cada mulher, quase sempre desconhecida, e assumia um nome
diferente com cada uma, uma nova identidade a cada orgasmo. A cada gozo morria
o traidor e nascia um justiceiro, que fugia do local repugnante tão logo
sentisse o cheiro a sexo recém praticado. Aquele justiceiro, um dia, se
corrompia aos prazeres da carne. Morria no gozo e dava origem a um novo,
preocupado em reparar os erros do anterior.
E, para
expulsar de vez o gosto do pecado e expiar os maus passos de seu antecessor, o justiceiro
sempre cuspia nas mulheres entregues. Isso mesmo. Claudinhas, Joanas, Marinas,
Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas cuspidas, recusadas, repugnadas.
Algumas se ofendiam e resolviam tirar satisfações. Outras gostavam e pediam
mais. Todas ficavam a ver navios, sempre.
Um dia, Simone
conheceu João. O mesmo roteiro idiota de todo homem: piscadinha de olho, olhada
fixa e esboço de um sorriso, uma desculpa pra se aproximar e pronto, já queria arrastar
a moça pra um motelzinho qualquer e se satisfazer. Ela resistiu, mas depois deu
o braço a torcer. Esse era até gostosinho. Impôs, contudo, uma condição:
– Vou no meu
carro.
E foram. O
rapaz, mais previsível do que nunca, acariciou os cabelos dela antes de começar
a apertá-la como se ela fosse um pacote de bolas de massagem. Em dez minutos já
haviam terminado. Ele soltou um gemido, meteu com mais força, e jogou todo o
peso em cima dela, como se ela fosse um pedaço inanimado de qualquer coisa.
Simone ficou
com nojo. Cuspiu na cara do precoce soberbo e foi embora. Sem dizer nada, nem
deixar telefone.
E desde então
Arnaldo vai todas as tardes ao banco, na esperança de reencontrar Luíza.
Agora também nessa vida de blogueiros. Pode marocar meu blog ô seu poeta! Sempre acompanhando você Luis Otávio. :)
ResponderExcluirMas conheço muitas Luizas e Arnaldos...
ResponderExcluirMuito bons teus escritos