- Eu acho melhor nós pararmos por aqui.
Estas foram as últimas palavras de Guilherme. As últimas que ele proferiu a Lívia com os olhos cheios d'água, mas as primeiras que ele lembrou naquela noite entediante de dezembro. Por que terminara com algo que havia levado tanto tempo para realizar? Por que lutara quatro anos bissextos para conquistar um tesouro desperdiçado em quatro bimestres? Nem mesmo Guilherme saberia responder. Em verdade, talvez o fato se tenha dado justamente por este motivo: faltava ao rapaz conhecer a si mesmo.
Tinha algumas aspirações, algumas donzelas idealizadas, mas era como uma grandiosa plantação de eucaliptos - a cada dia o moço crescia mais e ascendia rapidamente para o mundo profissional para o qual se preparava, mas em suas bases faltava-lhe algo. Faltava-lhe o mutualismo feliz com quem quer que fosse.
Tão invejado (tão bem-sucedido!), Guilherme era apenas uma pequena larva a revolver-se em meio a grandiosas e verdejantes folhagens. Muitos o admiravam, mas poucos, muito poucos suspeitaram, um dia, de suas angústias e inquietações.
Reclamava da aparente artificialidade de Lívia, da frieza da mulher em seus afetos. Uma mulher por ele tão idealizada não correspondera aos seus anseios. Mulher alguma corresponderia. Seu erro era anterior à conquista. Antes mesmo de cogitar a possibilidade de amar uma menina, a colocava acima de seu alcance. Consagrava a mulher ao Olimpo, numa posição que o impossibilitava tê-la desde aquele momento. Dava a Zeus o que não lhe pertencia!
Parece que, a Guilherme, perceber a Lívia e a qualquer outra moça como humana está além de suas possibilidades. Malditas leituras de Álvares! Malditos saberes de Dante! Se houvesse, alguma vez na vida, lido Goethe, talvez percebesse a realidade doa fatos (ou se corrompesse a ponto de descrer no amor). Não que ainda cresse no mesmo, solitário que é o pobre humano.
Talvez fosse melhor entregar-se a Iku, a Morfeu, a Tanatos. Que diferença enorme faria a nomenclatura - de que lhe adiantara todo o conhecimento. Sabia encontrar um livro na estante como ninguém, mas não conseguia traçar as próprias coordenadas...
Tristes duas horas da alvorada. Latem os cães. A música deprimente toca no aparelho de som. É a triste ilusão de não estar só. Que estranho, Cecília, os cisnes cantaram mais cedo esta noite.
*Texto perdido nas folhas rabiscadas de um caderno.
Estas foram as últimas palavras de Guilherme. As últimas que ele proferiu a Lívia com os olhos cheios d'água, mas as primeiras que ele lembrou naquela noite entediante de dezembro. Por que terminara com algo que havia levado tanto tempo para realizar? Por que lutara quatro anos bissextos para conquistar um tesouro desperdiçado em quatro bimestres? Nem mesmo Guilherme saberia responder. Em verdade, talvez o fato se tenha dado justamente por este motivo: faltava ao rapaz conhecer a si mesmo.
Tinha algumas aspirações, algumas donzelas idealizadas, mas era como uma grandiosa plantação de eucaliptos - a cada dia o moço crescia mais e ascendia rapidamente para o mundo profissional para o qual se preparava, mas em suas bases faltava-lhe algo. Faltava-lhe o mutualismo feliz com quem quer que fosse.
Tão invejado (tão bem-sucedido!), Guilherme era apenas uma pequena larva a revolver-se em meio a grandiosas e verdejantes folhagens. Muitos o admiravam, mas poucos, muito poucos suspeitaram, um dia, de suas angústias e inquietações.
Reclamava da aparente artificialidade de Lívia, da frieza da mulher em seus afetos. Uma mulher por ele tão idealizada não correspondera aos seus anseios. Mulher alguma corresponderia. Seu erro era anterior à conquista. Antes mesmo de cogitar a possibilidade de amar uma menina, a colocava acima de seu alcance. Consagrava a mulher ao Olimpo, numa posição que o impossibilitava tê-la desde aquele momento. Dava a Zeus o que não lhe pertencia!
Parece que, a Guilherme, perceber a Lívia e a qualquer outra moça como humana está além de suas possibilidades. Malditas leituras de Álvares! Malditos saberes de Dante! Se houvesse, alguma vez na vida, lido Goethe, talvez percebesse a realidade doa fatos (ou se corrompesse a ponto de descrer no amor). Não que ainda cresse no mesmo, solitário que é o pobre humano.
Talvez fosse melhor entregar-se a Iku, a Morfeu, a Tanatos. Que diferença enorme faria a nomenclatura - de que lhe adiantara todo o conhecimento. Sabia encontrar um livro na estante como ninguém, mas não conseguia traçar as próprias coordenadas...
Tristes duas horas da alvorada. Latem os cães. A música deprimente toca no aparelho de som. É a triste ilusão de não estar só. Que estranho, Cecília, os cisnes cantaram mais cedo esta noite.
*Texto perdido nas folhas rabiscadas de um caderno.
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