O mesmo caminho de sempre: Félix da Cunha até Dom
Pedro I; Dom Pedro I até o fim do mundo, e aí dobrava-se à esquerda e
chegava-se ao ponto do interurbano. No meio do percurso, duas praças e uma
igreja marcariam a certidão do trajeto.
Chovia demasiado, era noite já, e eu não via a hora
de chegar a casa. Tinha ido a Muquirana só para inscrever-me em uma seleção
para professor substituto do Instituto Independência, já que andava
desempregado e precisava de uma remuneração, mínima que fosse, mas efetiva,
garantida mês a mês por um tempo indeterminado.
Aproveitei o ensejo e fui ver a Mariana, velha
amiga de faculdade, empolgadíssima com seus afazeres na pós-graduação e em seu
namoro finalmente bem resolvido com Juan, de quem eu, particularmente, não
gostava muito, e por quem tampouco era bem quisto. Sempre que nos encontrávamos
era assim: muito tempo para o chimarrão, mais tempo ainda para as atualizações
recentes sobre um e outro. Não críamos em Facebook: as pessoas se esforçam
demais nessas redes para parecerem o que não são – era o que eu dizia e afirmo
até hoje.
Ela me contou sobre o mestrado, a vida com Juan, a
difícil decisão de mudar para Ipiranga, a fim de conciliar os seus desejos e os
do amado, economista. Eu, como sempre, fui o mais breve que pude, e relatei-lhe
minhas mais recentes novidades, acerca do namoro com Lívia e da busca por um
emprego – mestrado acabado, à espera de uma aprovação no doutorado...
Nove da noite, parti.
– Tchau, Mari!
– Tchau, Guto, te cuida!
Empunhei o guarda-chuva – desabavam águas
torrenciais – e saí. Com o temporal, raras pessoas na rua. Um ou outro
guardador de carros. Qualquer movimento parecia destruir a harmonia do silêncio
daqueles caminhos alagados de águas e de nada.
Próximo à primeira praça, antes de chegar à Dom
Pedro I, percebi que meus passos ecoavam. O chlep chlep dos pés n’água pareciam
repetir-se infinitamente.
Atravessei a rua, contornei a praça, e então
divisei o motivo de tanto ecoar: um vulto negro seguia o mesmo caminho que eu.
Não fiquei analisando, para não dar na vista, mas pude antever um guarda-chuva
e um perfil masculino. Temi pelo computador na mochila. O que fazia uma pessoa,
à mesma hora que eu, na rua, debaixo de chuva, seguindo-me os passos?
Acelerei o passo. Ele acelerou também. Passei
frente aos carros, no sinal. Ele também. Atravessei a Duque de Caxias. Ele
também. Contornei a segunda praça. Ele também.
Desesperei-me. Sabe aquele dia maldito em que tudo
o que tu tens é o dinheiro da passagem de volta pra casa e aparece um filho da
puta e te ameaça de morte se não entregares tudo? Eu já antevia o meu fim.
Teria que correr. Não que corresse mal, muito pelo contrário, mas aquela chuva,
tão desesperada quanto eu, desencorajava qualquer tentativa de movimentação
brusca.
Passei para a outra calçada, como quem fosse mudar
de rumo. O sujeito também. Pensei em parar para amarrar os cadarços do tênis, a
fim de deixá-lo passar e terminar com a angústia. Mas, e se me assaltasse? E se
me tirasse o computador? E se me levasse os únicos dez reais que levava no
bolso? Se me levasse a jaqueta, o casaco, o guarda-chuva? Nada podia ser pior
que ficar sem nada, desabrigado, em uma cidade que não era a minha e obrigado a
pedir auxílio a gente que com certeza temeria – como eu agora temia – um
assalto e pensaria um zilhão de vezes antes de colaborar comigo. A violência
urbana anda cada vez maior, e a gente não pode confiar nem na sombra.
E se, não encontrando dinheiro, o cara me matasse?
Desse um tiro? Me aleijasse? Definitivamente, parar para amarrar os cadarços
não estava nos meus planos. Precisava andar mais rápido, encontrar uma viva
alma que pudesse me dar uma força ou ao menos despistar o transeunte.
Chlep chlep (chlep chlep). Chlep chlep (chlep
chlep). Chlep chlep chlep chlep...
Já não andava. Voava. Cada passo parecia antecipar
o ataque do maldito assaltante. Discretamente, olhei para trás, para conferir a
distância que havia entre nós. Na primeira vez, tive certo contentamento,
estávamos a uns vinte metros de distância, e parecia que, de fato, a minha
sensação de perseguição se devia apenas ao medo de ser assaltado e ao barulho
dos nossos sapatos batendo na água, que enchia a rua como se estivéssemos a
sete palmos, um do outro. Na segunda vez, a distância havia diminuído
consideravelmente. O som dos passos parecia cada vez mais atordoante.
Acelerei mais. Estava a ponto de articular as
pernas em ângulos de noventa graus, de empreender uma corrida quase olímpica.
Não olhava mais pra trás, apenas seguia com as pernas estaqueadas, mecânicas,
afoitas. Enquanto o corpo se limitava, o espírito saltava, como que desejando
assaltar o primeiro carro que visse pela fr...
BÍÍÍÍÍÍ!!!!!!! BÍÍÍÍÍÍ!!!!!!!!!!!
Não havia visto o sinal. Atordoado, segui em frente.
Não divisei o vulto, e pude tranquilizar-me, até perceber que ele atravessara a
rua e seguira, pelo outro lado, e ainda, o mesmo caminho que eu. Faltavam duas
quadras para chegar ao ponto de ônibus. O interurbano sairia em dez minutos.
A distância entre nós estava menor, cerca de dez
passos. Se é que eu conseguia contar os passos diante de tanta sofreguidão.
Virei à esquerda. Cuidei o desconhecido pelas grades da casa da esquina.
Viraria também. Faltava-me cada vez menos para chegar ao ponto, e o maldito
indivíduo ficava cada vez mais perto.
Tropecei numa laranja podre, o musgo verde
acinzentado da casca lavado pelas águas da chuva. Havia uma caixa delas,
provavelmente vestígio dos dejetos de alguma feira livre ou quitanda. O cheiro
ininalável entranhava-se em minhas narinas, aumentado pela chuva que não
cessava de cair.
Foi então que encontrei a solução: uma faca na
minha mochila, com a qual eu cortara a laranja que comera, a caminho da
universidade. Seria ela a minha salvação! Se não a faca, ao menos as laranjas
podres em que tropeçara, posto me sugerissem, pela lembrança, uma alternativa a
tanta corrida.
Cheguei ao ponto de ônibus. O desconhecido se
aproximava. Trêmulo, peguei o mais rápido que pude a arma branca que trazia na
mochila. Em milésimos de segundo, vi o nó e o desenlace da perseguição sem fim:
o anúncio do assalto, a aproximação, o esfaqueamento, o sangramento ocasionado
pela perfuração, o resgate da mochila, o ônibus, a fuga.
O homem chegava cada vez mais perto, e eu por pouco
não me autoperfurava de tanta raiva, empunhando a faca. Um ônibus se
aproximava, mas não era o meu. Ele se aproximava cada vez mais, como que
esperando o movimento cessar para empreender o ganho do dia. A faca apertava
minha mão direita.
– O senhor sabe me dizer se aquele ônibus ali é o
Ibualama 768?
– É, sim.
– Ah, que bom que o senhor tava aí. Enxergo muito
mal e, em dia de chuva, sabe como é, minhas lentes parecem areia nos olhos.
Certo que ele já ia tá passando, quando eu visse. Brigado!
O desconhecido subiu no ônibus. Eu, então, desci do
cimo de minha ignorância, sentei no banco, e esperei pelo meu, em cinco minutos
que duraram uma eternidade.

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