Não consigo entender porque o fiz. Sempre fui uma pessoa muito tranquila, de modos respeitáveis, às vezes de uma ingenuidade de dar dó. Minha namorada se esforçava para provocar ciúmes que nunca senti. Às vezes simulava, para não parecer indiferente, porque mulher tem dessas coisas, né? Mas segurança sempre foi minha palavra de ordem.
"Viste como Clair anda me cuidando? E Gil? Acho melhor tomares mais cuidado com essas tuas companhias...". Pobre Manú. Se havia algo que tínhamos de diferente era essa necessidade de declarações públicas de afeto. Com ela, era sempre assim.
Eu, ao contrário, sempre fui um pouco bicho-do-mato: preferia os meus animais, as conversas diretas, o "preto-no-branco". Como diz o poema do Bandeira, que ela tanto me recitava: "Beijo pouco, falo menos ainda".
Manuela era mais sociável. Sorria sempre, vestida com cores fortes, vivas, dessas que seduzem qualquer um. E como era feminina... Adorava passear ao seu lado, na rua, exibindo as curvas daquela mulher que todo ser humano queria ter para si, mas que só eu tinha. Manú era minha felicidade.
Mas a insegurança dela nos impediu de ser felizes.
Foi no dia 05 de novembro. Nunca esqueci. Saí, com a cabeça explodindo, do trabalho e fui disparando pra casa. Precisava daquele carinho que só mulher sabe dar.
Cheguei pé-por-pé. Queria fazer surpresa pra minha insegura, pra minha ciumenta que eu tanto amava. Larguei as chaves devagar, sem fazer barulho, e subi as escadas. Certamente ia encontrá-la deitada ou indo pro banho...
Abri a porta do quarto e ela estava lá, pernas pro ar, chamando pelo nome daquele desgraçado do Henrique. Gemiam feito porcos. Como eu nunca desconfiei?
Abri a porta do quarto e ela estava lá, pernas pro ar, chamando pelo nome daquele desgraçado do Henrique. Gemiam feito porcos. Como eu nunca desconfiei?
Não consegui ver mais nada, depois de tê-los encontrado. À exceção da faca de cortar carne, na cozinha, que sorrateiramente busquei para enfrentar meu desgosto. Pau pra minha confiança, pra minha segurança. Fodeu-se o autocontrole. Avancei sobre Henrique como um toureiro em arena espanhola. O sangue escorreu violento pelos lençois, e com ele o grito de pavor e os olhos temerosos de Manú. Me despedi: "Vai pro inferno, puta desgraçada".
Não sangrou. Sufoquei. Mas eu a amo. Sempre a amei. É inevitável. Acordo e vejo-a ao meu lado, na cama. E choro, toda vez que a realidade insiste em me castigar. E ainda ecoa na minha cabeça o "Neologismo", de Bandeira, de versos sussurrados por ela enquanto me amava: "Teadoro, Teodora". Éramos muito mais felizes quando éramos apenas duas.
Não sangrou. Sufoquei. Mas eu a amo. Sempre a amei. É inevitável. Acordo e vejo-a ao meu lado, na cama. E choro, toda vez que a realidade insiste em me castigar. E ainda ecoa na minha cabeça o "Neologismo", de Bandeira, de versos sussurrados por ela enquanto me amava: "Teadoro, Teodora". Éramos muito mais felizes quando éramos apenas duas.
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