A notícia já é velha: um livro didático lançado pelo MEC foi alvo de críticas hostis pela imprensa, campo de prestígio de "profissionais" como o tal Professor Pasquale e seu companheiro das letras descontextualizadas, Sérgio Nogueira. No Rio Grande do Sul, mais especificamente, a ignorância de um jornalista chamado David Coimbra tem recebido apoio da população que, sem grandes conhecimentos em Linguística e marcada por séculos de ditadura da gramática normativa, vê a transcrição da língua cotidiana como fator inconcebível e queda no ensino de língua portuguesa no Brasil. Até aí, nada além do esperado. Querer que campos de predomínio dessas figuras recebessem bem o livro seria utopia.
Acuados por receberem críticas pelos seus comentários infundados, os senhores da falta de informação recuperam autores de gramáticas normativas como argumento de autoridade. E aí surgem homens como Bechara e Mattoso Jr, recuperado em texto da Academia Brasileira de Letras (pasmem!), em texto publicado no dia 17, contra o livro. Ora, querer apoio de gente morta e/ou daqueles cuja formação não vislumbrava ainda o falante como principal preocupação dos estudos de linguagem é querer encontrar o Eldorado submerso no Tietê. São carreiras construídas dentro de uma perspectiva elitista a vida toda e autores que se sustentaram e ganharam destaque na academia à base de manuais de gramática.
Por falar em perspectiva elitista, um dos argumentos da nossa amada ABL e de toda a classe que apóia a GT é o de que o professor de língua portuguesa "espera encontrar no livro didático o respaldo dos usos da língua padrão que ministra a seus discípulos, variedade que eles deverão conhecer e praticar no exercício da efetiva ascensão social que a escola lhes proporciona" (site da ABL: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=11763&sid=727). Ora, amigos, não me façam chorar. Ninguém melhor que os professores da escola pública sabe que isso não se verifica no plano do real. Passamos a vida inteira estudando e ensinando os usos da língua portuguesa e somos os profissionais mais mal remunerados na relação estudo x ascensão social. Somos extremamente desrespeitados, tanto no que diz respeito aos nossos salários quanto no que tange ao nosso fazer acadêmico, no qual toda a população tem metido o bedelho.
Nisso, então, nosso amigo David Coimbra tem sido doutor (http://wp.clicrbs.com.br/davidcoimbra/2011/05/19/a-defesa-da-ignorancia/?topo=13,1,1,,,13). Seu blog conta com milhares de visitantes e ele, que parece não olhar para os próprios escritos, diz para a massa que todos devemos escrever bem - em nome da ascensão social - e critica a postura de uma doutora em Linguística por esta ter apoiado a publicação do MEC, dizendo que o seu problema está em ser esquerdista e, portanto "idealizar o pobre":
Esse é um dos maiores problemas da esquerda: a idealização do pobre. O pobre não quer ser pobre, não quer viver como pobre, nem se comportar como pobre. O pobre acharia de muito mau gosto se ouvisse uma doutora falando “os peixe”.
Numa terra em que o Big Brother Brasil torna milionários, todos os anos, pessoas como Kleber Bambam, Cida e Maria, cujo falar se afasta BASTANTE do ideal da gramática normativa; num lugar em que meus vizinhos sem estudo vão para as forças armadas e ganham três vezes mais do que eu, que tô fazendo mestrado e estudando há anos; num país em que políticos faturam milhões às custas do povo e celebridades (artistas e jogadores de futebol) muitas vezes não completaram sequer o fundamental, me parece - no mínimo - uma hipocrisia sem tamanho dizer que o domínio da língua "culta" vai dar a alguém ascensão social.
Após séculos em busca de um "falar e escrever certo", o Brasil enfrenta uma crise ao descobrir que este "certo" não existe. Mas isso não justifica as atitudes agressivas de gente que não estuda o assunto, assim como eu, enquanto professor de língua, não tenho direito algum a me envolver nos procedimentos cirúrgicos de um médico ou nas construções civis de um engenheiro. Como disse o Coimbra a uma amiga minha, Suellen Rubira, ele se sente no direito de falar da língua porque escreve todos os dias há mais de 30 anos. Pois é, meu caro, minha bisavó fala a língua todos os dias há mais de 80, e isso não lhe dá o direito de ditar o "certo" e o "errado" em áreas que ela não estudou. Conheço muita gente que lê jornal há séculos, e não creio que julgarias apropriado criticarem o teu trabalho massivamente e te chamarem de péssimo profissional por conta disso. Se tu crês que o uso da língua te é suficiente para criticar a postura do MEC, me parece que a ignorância parte de ti, que te contradizes ao querer ditar o certo a pessoas como a minha avó. Afinal, uso por uso...
Por que não publicas este texto em Zero Hora?
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