Mas eles não falam a mesma língua
Eu grito o que eles não ouvem
Eu choro o que eles não veem
Eu vibro pelo que eles não sabem
Nem sequer que existe
Eu tenho um mundo inteiro pela frente
E eles só veem e vivem
Na pequenez dos seus atos cotidianos
Na pequenez dos seus atos cotidianos
Os lábios, sempre projetos
Sempre calados
Não falam
Resmungam
São apenas depósito inerte
São apenas depósito inerte
De um "quoi"
Que eles nem sabem o que é.
Que eles nem sabem o que é.
Eu observo calado
As meninas que riem sozinhas
Os rapazes com seus celulares
A gente, os cães, a matilha
Eu sinto o cheiro da podridão humana
Eu sinto o cheiro da hostilidade
Eu sinto o mau cheiro dos falsos sorrisos
Nos olhares e odores de um tram
Porque a indiferença é o que move as relações aqui
(Não seria ela o motor das relações humanas?)
Porque os olhares são vazios
E ninguém pede nada
Que não seja o de sempre
Estão todos tão habituados ao pão-de-cada-dia
E ninguém sente sede
Ninguém sente fome
Ninguém sente a necessidade de uma mancha de vinho tinto em camisa branca
E eu passo vinte minutos dentro de um tram lotado
Pinches vinte minutos sem deixar de pensar
Eu vejo essa gente que se toca mas não se olha
Eu ouço um pardon vazio de boa vontade
Estamos todos como peças de um jogo
Que ninguém se propõe questionar
Estamos a meio centímetro de distância
Mas há muitos oceanos entre nós.
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