Hoje, como estava cheio de questões a resolver e completamente vazio de vontades de resolução, o tédio se apossou de mim. E então, como bom estudante da linguagem que sou, cismei com um bendito tempo verbal quando lembrava de algo relativamente insignificante de uma pessoa com quem não mantenho mais certo contato diário, e cuja ausência me trouxe saudade neste sábado tedioso e cansativo.
Era o pretérito imperfeito. Partículas como "-ava", "-ia". Vogais abertas em palavras paroxítonas. Incrível o quanto essas estruturas refletem-se no nosso discurso quando alguém a quem tão bem queremos, ou quisemos, passou para a outra fronteira, e do lado de cá não fica mais em outro lugar que não o da lembrança.
Pois bem. Não mais do que de repente, deparei-me a versar, internamente, sobre o quanto algo faria rir a determinada pessoa. E refleti: quantas vezes não nos pegamos a pensar sobre como era bom ter a companhia de fulano(a), ou como beltrano(a) era engraçado, ou o quanto o abraço de cicrano(a) nos fazia bem?
E, aí, de uma hora pra outra, percebemos que o bendito do pretérito imperfeito só penetra no campo do que não existe mais. Na escola, sobretudo no ensino de língua estrangeira, o imperfeito é ensinado constantemente tomando por base as lembranças de infância do aprendiz: como era a casa em que vivia, o que fazia nas tardes de domingo... O tal do não-perfeito também é frequentemente utilizado por senhores da chamada feliz idade, quando contam aos menos experientes sobre a beleza da juventude perdida. Em casa, então, ouvimos o tempo verbal da imperfeição toda vez que há alguém novo na casa, uma namorada por exemplo. Porque a entrada de um novo membro na convivência familiar exige uma pequena retomada de todos os micos, travessuras e constrangimentos vividos pelo ser com quem a bárbara "invasora" tenciona manter uma relação.
Desconsiderando-se os fatos específicos, a verdade é que o pretérito imperfeito só nos traz o que já não faz parte das nossas vidas. Só dizemos que gostávamos disso ou daquilo quando já não gostamos mais. Só lembramos que alguém era assim ou assado quando já não o é. Porque só sentimos saudades do que não temos conosco.
O pretérito imperfeito só aviva, no plano da lembrança, aquilo que já morreu.
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