Tive um dia maravilhoso. Depois da noite ego-chuvosa e do abraço confortador, no calor dos teus braços finalmente encontrei o alívio e a esperança de mudar toda a minha crise em felicidade. Acordei passarinheiro, livre, leve e trovador. Cantei à beleza das aves, à leveza do ar, aos predicados da mãe natureza. Acordei extremamente bem, apesar de ter pouco dormido, e consegui até mesmo assistir à aula da Porta sem me estressar com ela. O mundo era novo, a fase era nova, Fênix finalmente renascia. Todas as lágrimas haviam secado, todas as tristezas haviam fugido, e meu espírito se elevava a tal ponto que cheguei a crer que havia alcançado o sonho de Ícaro.
Mas o Sol, deus traiçoeiro, aproveitava-se de minha ingênua felicidade para zombar de toda minha humanidade. Assim que o carro divino ultrapassava o ponto médio de sua trajetória, encontrei Ariadne. Eu estava feliz, e o brilho que em meus olhos havia era muito maior do que o de qualquer corpo celeste. Mas os dela não brilhavam. E o beijo que me deu era tão vazio quanto o seu olhar. Sofri.
Após enfrentar os maiores exercícios de paciência que podia ter tido, voltei então para o campo, sonhando com os beijos de Ariadne, que talvez não estivessem tão frios quanto a minha mente (e nem mesmo Bentinho conseguiria deturpar tanto a própria) projetara. E nesta busca constante de beijos, eis que não os encontrei: pela primeira vez havia encontrado frieza nos olhos de minha deusa.
O Sol partiu, e com ele a noite tornou-me mais água. Tive repentinas mudanças de temperatura que não as sei explicar, e os beijos que tanto busquei os mal tive na despedida, como dantes. Parti para a pátria, revoltado e com raiva de meu rival: era o próprio ego que espezinhava de mim, que via em cada palavra da mulher amada o escárnio e a indiferença para, ouvindo ela dizer que me ama, sentir tristeza por ver-se incapaz de movê-la da escuridão, e da reclusão deste amor.
Ontem a noite foi de sonho. Esta... como eu queria que também o fosse.
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