Perdi um pouco dos teus olhos ultimamente. Preocupado em agarrar-me às partes vizinhas, fixei-me em teu colo, teus cabelos, teus lábios, tua pele, em todo o teu corpo, por medo de não ter-te inteira. E, assim, quanto mais medroso e agarrado me detive, mais perdia o teu todo por agarrar-me às partes.
Não há momento em que não a queira, e nem segundo em que não deseje tê-la. E, entre estes quereres e teres, às vezes me perco no labirinto das crises. Perdido e sem luz, ainda que em alguns momentos as paredes sejam espessas e os caminhos ramificados, uma única certeza me acompanha: a de que tua luz invadirá o labirinto e de que o teu fio, Ariadne, salvar-me-á dos monstros que tantas vezes crio.
E, contra todas as trevas do meu labirinto, somente o brilho dos teus olhos - de que acabei por desviar-me, tentando concatenar-te toda - é eficaz e belo e sublime e inebriante e indescritivelmente revelador da existência da divindade. Pois, querendo prender-te e puxar-te pelo fio que me cedes, eis que enredo-me em minha própria arma e torno-me presa de quem desejava prender.
Assim, ao fim e ao cabo, não te quero presa, nem quero-te em partes. Quero-te inteira, criança, mas livre e sem labirintos. Quero-te em liberdade querendo-me por querer. Quero-te cativa em liberdade e quero-te comigo por quanto o desejares. Quero-te pássaro selvagem, felino arisco, brisa a acariciar-me o rosto. Porque em ti sou vento agitado, sou água corrente, alma em chamas e terra firme. E, como sou contraditório, e irritante, geral e provavelmente não estaremos na mesma elementaridade. Mas é assim que nos completamos, e é assim que vivo feliz - porque não existe outra possibilidade quando estou ao teu lado.
02/12/2009
Mauro's class
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